domingo, 27 de janeiro de 2013

A gente acha que nunca vai acontecer com a gente



Aquela noite

Aquela era minha noite.
Término de namoro recente ainda incomodava.
Festa da faculdade.
Oportunidade perfeita para"correr atrás do tempo perdido".
Chegamos no local.
A boate se chama Kiss.
Um dos lugares mais atraentes das noites da pacata cidade de Santa Maria no Rio Grande do Sul.
Vi a fachada do lugar. Que lugar!
Era minha primeira visita a casa.
Logo na entrada fui envolvido por um frio latente que parecia tomar todo o meu corpo.
A sensação foi logo interrompida por uma outra sensação muito melhor.
Ela estava lá. No alto de seus 1,65cm de beleza e sedução.
Eu estava hipnotizado por seus belos olhos azuis.
Seu estilo me atraía.
Vestido curto. Um corpo sensacional.
Decidi não sair daquele lugar sem torná-la minha.
Mas minha timidez me impediu de chegar até ela.
Pensei na melhor solução para esse tipo de problema.
Claro que estou falando de álcool.
Tomei uma, duas, três cervejas.
Outros tantos shots.
A banda estava se apresentando.
A música era muito boa.
Eu a tinha na mira. Não conseguia tirar os olhos dela.
E achava, ou queria achar, que era correspondido.
O lugar não era grande.
As pessoas estavam animadas.
Meus amigos eu já tinha perdido de vista.
Senti um calor repentino.
Atribui à bebida.
Mas sabia que aquilo não estava normal.
Uma gritaria atípica e um cheiro estranho...
...FOGO.
Sabe aquele sentimento de responsabilidade que bate em meio a situações de extrema necessidade quando estamos bêbados?
Foi exatamente aquilo me ocorreu.
O teto estava em chamas.
As paredes aos poucos eram tomadas por labaredas que engoliam a multidão.
Até eu digerir toda aquela cena já fora pisoteado por dezenas de pessoas buscando uma saída.
Em fração de segundos em pensava como aquilo era possível.
Em outras frações eu só pensava em sair.
A porta principal estava surpreendentemente bloqueada.
Tentamos saídas alternativas.
Nessa altura eu não sabia onde estavam meus amigos.
Só pensava em sair daquele lugar.
A respiração era difícil. A balada foi tomada pela fumaça.
Impossível reconhecer um ao outro no local.
Procurei seguir uma luz que não indicava saída de emergência.
Era uma saída qualquer. Lotada.
Desorganizadamente saíamos.
Eu não sabia o que estava acontecendo.
Ao meu redor muito choro e mais dúvidas. Revolta. Medo. Incredulidade.
Difícil de classificar.
Com mais frieza consegui esclarecer os fatos em minha cabeça.
O som das sirenes já era possível. Embora muito longe. Mas iam crescendo, se intensificando de forma tão intensa que ainda posso ouví-las.
Respirei fundo. Estava bem. Estava chocado. Estava perplexo Mas estava fisicamente bem.
A fumaça ainda estava entalada no meu peito.
Minha garganta parecia carregada. Um sabor amargo na boca.
Em um surto de coragem e inconsequência eu voltei.
Não pensei em mim naquela hora.
Mas não queria ficar lá fora com aquelas pessoas.
A cena era deprimente. E eu não queria tornar isso mais grave.
Lá dentro eu me dei conta da péssima escolha.
Não fui contido na hora de voltar.
Mas sabia que era o único nadando contra a maré de fogo.
O ambiente estava mórbido.
Gente desmaiada na porta dos banheiros e próximo ao palco.
Era tudo o que a minha turva visão me permitia enxergar.
Queria ajudar de alguma forma. Resgatar amigos que lá deixei.
Meus ímpetos eram em vão.
Ouvi a presença do corpo de bombeiros.
Não imaginava quanto tempo havia se passado.
Uma eternidade na minha cabeça.
Eu tentava andar e esbarrava em corpos estirados.
Eu pedi para estar lá. Mas não conseguia encarar aquilo.
Marteladas. Água. Gritos. Correria. Era o pior dos meus pesadelos.
Fui intimado a sair. Recusei. Não aceitava voltar.
Parte de mim estava perdida lá dentro.
A outra parte estava ofuscada.
Talvez estivesse delirando por respirar tanta fumaça.
Eu andava entre os corpos como uma alma penava sem destino.
Naquele momento eu não pensava em mais nada.
Toda a minha tristeza se apagou. Tudo foi mudado com uma cena. Era ela.
Deitada. Seu sorriso angelical ainda estampado na face.
Recuperei toda minha lucidez pela segunda vez naquela noite.
Peguei-a em meus braços.
Estava quente pelo fogo.
Estava fria pela morte.
E naquele momento eu cumpri minha palavra.
Ela saiu daquele lugar sendo minha.
Em meus braços.
Dois corpos. Uma vida.

sábado, 19 de janeiro de 2013

Conselhos de amigo


 

     

    Esse aí sou eu dando conselhos a um velho amigo, Oscar Wilde. Recentemente ele me convidou para visitá-lo em Galway. Eu, educadamente, aceitei o convite. 
    Wilde está passando por uma fase difícil. Ele acredita estar em um hiato de seu ofício de escritor. Logo, pediu para ajudá-lo com minhas ideias fantásticas e criativas. Eu disse a ele que poderia ceder uma de minhas histórias, já que ultimamente eu ando produzindo em demasia.
    Há muito tempo venho trabalhando em uma novela que consiste em um sujeito que se apaixona por sua própria imagem após ganhar um quadro que o retratava. Ele gosta tanto da obra que se lamenta ao saber que um dia ele ficará velho e sofrerá transformações físicas enquanto o quadro permanecerá belo. Então, ele deseja ser jovem para sempre enquanto o quadro é "amaldiçoado" com as transformações decorrentes da ação do tempo.
    Expliquei para Wilde que essa ideia visa combater a beleza na sociedade atual, onde muitas vezes somos ditados pelos padrões da moda e da aristocracia. Um sucesso absoluto. Questão de tempo para estourar em vendas e reabrir um grande sorriso na cara desse meu amigo que merece todo o sucesso do mundo.