Na última rodada do campeonato paulista o São Paulo venceu o modesto XV de Piracicaba. Desde então o que mais vejo nas páginas de esporte é que o clima no tricolor finalmente está apaziguado. Nenhum jogador reclamando da condição de reserva, uma vitória fora de casa após longos meses de jejum, jogadores "bixados" mostrando vigor em campo e Paulo Henrique Ganso reconquistando o status de craque após dois passes para companheiros na cara do gol. Enfim, não importa se as vitórias estão chegando com um futebol grosseiro, mas o importante é que estão chegando.
Ainda não confio 100% em certos integrantes do elenco e comissão técnica, mas já temos um bom motivo para comemorar. Não acredito em filosofias de boteco, tarô ou espíritos, mas acredito que na vida existe um eterno retorno.
"E se um dia ou uma noite um demônio se esgueirasse em tua mais solitária solidão e te dissesse: 'Esta vida, assim como tu vives agora e como a viveste, terás de vivê-la ainda uma vez e ainda inúmeras vezes: e não haverá nela nada de novo, cada dor e cada prazer e cada pensamento e suspiro e tudo o que há de indivisivelmente pequeno e de grande em tua vida há de te retornar, e tudo na mesma ordem e sequência'".
O trecho acima foi extraído da obra de Friedrich Nietzsche, A Gaia Ciência, de 1882. Nele Nietzsche descreve a redenção em tempos de angústia. Basicamente, o eterno retorno prega que, seja bom ou ruim, tudo na vida tem um ciclo sem fim. Toda aflição e alegria terá seu retorno em um período indeterminado. E o que Nietzsche tem a ver com o futebol? Tudo.
Vamos pegar o exemplo não muito distante geograficamente do São Paulo: o Corinthians. Em 2000 o Corinthians viveu, não é exagero afirmar, a melhor fase de seus -até então- 90 anos. No ano 2000 o clube faturou, ainda em Janeiro, o mundial Interclubes da Fifa. Um mês antes o timão havia se consagrado bicampeão brasileiro, a terceira taça da equipe do torneio.
Em 2007, os deuses do futebol resolveram pregar uma peça no time e mandá-los para a segunda divisão. Anos depois, a reação corintiana começou aos poucos. O time faturou a série B de 2008 com sobras, venceu o campeonato paulista e Copa do Brasil de 2009. No ano seguinte (centenário) passou batido. Mas isso não tirou o brilho do título do Campeonato brasileiro da série A em 2011. A redenção corintiana veio de vez em 2012, quando o time venceu a inédita Libertadores e bateu o poderoso Chelsea no Japão.
No período de 2000 a 2012 é possível afirmar que o Corinthians foi do céu ao inferno, para depois retomar o seu devido posto no paraíso, mostrando que no futebol há espaço para o eterno retorno.
Quem também sofreu com o eterno retorno foi o Palmeiras. O time que em 1999 foi campeão da Libertadores e bateu na trave na tentativa do título mundial sofreu uma queda repentina. Queda por queda, foi parar na série B no ano de 2003. Em 2004 voltou apresentando um bom cartão de visitas: vaga à Copa Libertadores de 2005. Anos mais tarde o time conquistou a Copa do Brasil, em 2012. Mas nem tudo foi alegria naquele ano. O eterno retorno não foi gentil com o verdão e os mandou de volta ao limbo da série B.
O Santos, por sua vez, após a era Pelé estagnou-se no mundo da mesmice. Poucos títulos, poucos holofotes. As coisas começaram a mudar no final dos anos 90 e início dos anos 2000. Destaque para Giovanni, que conduziu o peixe à final do Brasileiro de 1995 e Robinho, que ao lado de Diego, Elano e companhia colocou os meninos da vila de volta aos trilhos do sucesso. Campeões estaduais, nacionais e depois, com a ajuda do ídolo Neymar, o Santos reconquistou a América, confirmando seu retorno.
Deixando os rivais de lado, voltemos ao longínquo ano de 1993, ano em que o São Paulo venceu o Milan na final do torneio Intercontinental, tornando-se bicampeão do mundo. Aquele foi o ápice do sucesso são paulino. Vale lembrar que naquela época o Milan representava a base da seleção italiana vice campeã na Copa do Mundo de 1994, perdendo exatamente para o Brasil. Título que não ficou com o Brasil em 1994 foi a Libertadores. O mesmo São Paulo de Telê Santana chegava a sua terceira final consecutiva. Após bater Newell's Old Boys e Universidad Católica nos anos anteriores, o tricolor esbarrou na máquina argentina do Velez Sarsfield, na época comandado por Carlos Bianchi.
De 1994 até 2005 o São Paulo passou períodos de vacas magras. Títulos não faltaram. Mas o que faltava eram títulos expressivos, que condiziam com a grandeza do bicampeão mundial. O torcedor precisou se acostumar com jogadores pouco badalados. Por muitas vezes grossos, para ser sincero. Me vem a mente nomes como o goleiro Alencar, os zagueiros Rogério Pinheiro, Reginaldo Cachorrão, Wilson e Émerson, os laterais Rafael, Lino, os meias Alexandre Rottweiler, Carabali, atacantes como Jacques, Dill e Rondón. Daria tranquilamente para fazer um time de jogadores com passagem desastrosa pela equipe. Tudo bem, o futebol, às vezes, funciona como loteria e contratação nem sempre é sinal de sucesso. Azar e loteria andam lado a lado. Azar da torcida que passava raiva com com esses atletas em campo.
Para a alegria são paulina a sorte do time começou a mudar. Em 2005, numa mescla de apostas e nomes consagrados, o São Paulo levantou a taça da Libertadores e o cobiçado Mundial Interclubes pela terceira vez. O São Pualo fechara as portas do purgatório e o Morumbi transformou-se num paraíso na Terra até o ano de 2008, ano do hexacampeonato brasileiro.
De lá para cá o time mergulhou num poço de lava demoníaca e amargou nada mais que o pior ano da história do clube. 2014 começou com muita expectativa. O técnico Muricy Ramalho finalmente teria a chance de fazer a pré temporada com a equipe. Os tão necessários reforços não vieram e o resultado foi uma extensão de 2013 em pleno ano novo: derrota na estréia para o Bragantino, derrota em clássico e um time apático longe de seus domínios.
A última rodada foi o suficiente para voltar a estampar um sorriso no rosto do torcedor são paulino. Até quando não sabemos. Mas se tem uma coisa em que o futebol é bom é na arte de surpreender.
Os Jeans, Régis, Axel, Oliveiras do passados podem facilmente serem vistos nas peles de Rodrigo Caio, Paulo Miranda, Douglas e Maicon. Historicamente, significa que a torcida não deve esperar muitos frutos positivos desse time. Mas, se a lei do eterno retorno for generosa em breve o martírio vai ter seu fim, as trevas darão lugar a luz e o tricolor pode até sonhar com um título da Libertadores em breve.
Nietzsche morreu em 1900, por isso não teve muitas chances de acompanhar as mudanças no futebol. Mesmo assim contribui imensamente para essa gangorra entre o bem e mal dos clubes. Se estivesse vivo ficaria orgulhoso por alimentar esse sonho nos torcedores, em especial nos são paulinos, que ultimamente assistem aos jogos com uma caixinha de Pandora embaixo do braço.
Ainda não confio 100% em certos integrantes do elenco e comissão técnica, mas já temos um bom motivo para comemorar. Não acredito em filosofias de boteco, tarô ou espíritos, mas acredito que na vida existe um eterno retorno.
"E se um dia ou uma noite um demônio se esgueirasse em tua mais solitária solidão e te dissesse: 'Esta vida, assim como tu vives agora e como a viveste, terás de vivê-la ainda uma vez e ainda inúmeras vezes: e não haverá nela nada de novo, cada dor e cada prazer e cada pensamento e suspiro e tudo o que há de indivisivelmente pequeno e de grande em tua vida há de te retornar, e tudo na mesma ordem e sequência'".
O trecho acima foi extraído da obra de Friedrich Nietzsche, A Gaia Ciência, de 1882. Nele Nietzsche descreve a redenção em tempos de angústia. Basicamente, o eterno retorno prega que, seja bom ou ruim, tudo na vida tem um ciclo sem fim. Toda aflição e alegria terá seu retorno em um período indeterminado. E o que Nietzsche tem a ver com o futebol? Tudo.
Vamos pegar o exemplo não muito distante geograficamente do São Paulo: o Corinthians. Em 2000 o Corinthians viveu, não é exagero afirmar, a melhor fase de seus -até então- 90 anos. No ano 2000 o clube faturou, ainda em Janeiro, o mundial Interclubes da Fifa. Um mês antes o timão havia se consagrado bicampeão brasileiro, a terceira taça da equipe do torneio.
Em 2007, os deuses do futebol resolveram pregar uma peça no time e mandá-los para a segunda divisão. Anos depois, a reação corintiana começou aos poucos. O time faturou a série B de 2008 com sobras, venceu o campeonato paulista e Copa do Brasil de 2009. No ano seguinte (centenário) passou batido. Mas isso não tirou o brilho do título do Campeonato brasileiro da série A em 2011. A redenção corintiana veio de vez em 2012, quando o time venceu a inédita Libertadores e bateu o poderoso Chelsea no Japão.
No período de 2000 a 2012 é possível afirmar que o Corinthians foi do céu ao inferno, para depois retomar o seu devido posto no paraíso, mostrando que no futebol há espaço para o eterno retorno.
Quem também sofreu com o eterno retorno foi o Palmeiras. O time que em 1999 foi campeão da Libertadores e bateu na trave na tentativa do título mundial sofreu uma queda repentina. Queda por queda, foi parar na série B no ano de 2003. Em 2004 voltou apresentando um bom cartão de visitas: vaga à Copa Libertadores de 2005. Anos mais tarde o time conquistou a Copa do Brasil, em 2012. Mas nem tudo foi alegria naquele ano. O eterno retorno não foi gentil com o verdão e os mandou de volta ao limbo da série B.
O Santos, por sua vez, após a era Pelé estagnou-se no mundo da mesmice. Poucos títulos, poucos holofotes. As coisas começaram a mudar no final dos anos 90 e início dos anos 2000. Destaque para Giovanni, que conduziu o peixe à final do Brasileiro de 1995 e Robinho, que ao lado de Diego, Elano e companhia colocou os meninos da vila de volta aos trilhos do sucesso. Campeões estaduais, nacionais e depois, com a ajuda do ídolo Neymar, o Santos reconquistou a América, confirmando seu retorno.
Deixando os rivais de lado, voltemos ao longínquo ano de 1993, ano em que o São Paulo venceu o Milan na final do torneio Intercontinental, tornando-se bicampeão do mundo. Aquele foi o ápice do sucesso são paulino. Vale lembrar que naquela época o Milan representava a base da seleção italiana vice campeã na Copa do Mundo de 1994, perdendo exatamente para o Brasil. Título que não ficou com o Brasil em 1994 foi a Libertadores. O mesmo São Paulo de Telê Santana chegava a sua terceira final consecutiva. Após bater Newell's Old Boys e Universidad Católica nos anos anteriores, o tricolor esbarrou na máquina argentina do Velez Sarsfield, na época comandado por Carlos Bianchi.
De 1994 até 2005 o São Paulo passou períodos de vacas magras. Títulos não faltaram. Mas o que faltava eram títulos expressivos, que condiziam com a grandeza do bicampeão mundial. O torcedor precisou se acostumar com jogadores pouco badalados. Por muitas vezes grossos, para ser sincero. Me vem a mente nomes como o goleiro Alencar, os zagueiros Rogério Pinheiro, Reginaldo Cachorrão, Wilson e Émerson, os laterais Rafael, Lino, os meias Alexandre Rottweiler, Carabali, atacantes como Jacques, Dill e Rondón. Daria tranquilamente para fazer um time de jogadores com passagem desastrosa pela equipe. Tudo bem, o futebol, às vezes, funciona como loteria e contratação nem sempre é sinal de sucesso. Azar e loteria andam lado a lado. Azar da torcida que passava raiva com com esses atletas em campo.
Para a alegria são paulina a sorte do time começou a mudar. Em 2005, numa mescla de apostas e nomes consagrados, o São Paulo levantou a taça da Libertadores e o cobiçado Mundial Interclubes pela terceira vez. O São Pualo fechara as portas do purgatório e o Morumbi transformou-se num paraíso na Terra até o ano de 2008, ano do hexacampeonato brasileiro.
De lá para cá o time mergulhou num poço de lava demoníaca e amargou nada mais que o pior ano da história do clube. 2014 começou com muita expectativa. O técnico Muricy Ramalho finalmente teria a chance de fazer a pré temporada com a equipe. Os tão necessários reforços não vieram e o resultado foi uma extensão de 2013 em pleno ano novo: derrota na estréia para o Bragantino, derrota em clássico e um time apático longe de seus domínios.
A última rodada foi o suficiente para voltar a estampar um sorriso no rosto do torcedor são paulino. Até quando não sabemos. Mas se tem uma coisa em que o futebol é bom é na arte de surpreender.
Os Jeans, Régis, Axel, Oliveiras do passados podem facilmente serem vistos nas peles de Rodrigo Caio, Paulo Miranda, Douglas e Maicon. Historicamente, significa que a torcida não deve esperar muitos frutos positivos desse time. Mas, se a lei do eterno retorno for generosa em breve o martírio vai ter seu fim, as trevas darão lugar a luz e o tricolor pode até sonhar com um título da Libertadores em breve.
Nietzsche morreu em 1900, por isso não teve muitas chances de acompanhar as mudanças no futebol. Mesmo assim contribui imensamente para essa gangorra entre o bem e mal dos clubes. Se estivesse vivo ficaria orgulhoso por alimentar esse sonho nos torcedores, em especial nos são paulinos, que ultimamente assistem aos jogos com uma caixinha de Pandora embaixo do braço.