Bolaños morria praticamente todas as semanas nas redes
socais. Notícias plantadas diziam que piorava o estado de saúde do artista
mexicano e, de longe, sofríamos por não saber a verdade. Sexta-feira, 28 de
novembro, chega uma mensagem em meu celular: “O Chaves (Chapolin) morreu”. Mais
uma vez custo a acreditar na notícia. Vou até os sites especializados em
informações minuto a minuto. O primeiro deles já estampa Roberto Gomez Bolaños,
vestido de Chaves, num fundo preto e branco e as datas em destaque: *1929-2014*.
Uma visita a outro site “confiável” e as primeiras lágrimas arriscam cair.
Sabíamos que estado de saúde de Roberto era delicado. Mas recusávamos sua
morte.
Quatro dias após seu falecimento, continuo recusando
as notícias. Para mim e para milhões de fãs, Roberto estará sempre vivo na
memória e na herança que deixou ao mundo com seus personagens célebres.
A genialidade de Bolaños lhe permitiu a realização de
nosso maior sonho: voltar a ser criança. E ele fez isso da maneira mais modesta
possível. Poderia ser o que quisesse, mas optou por voltar na forma de um
garoto pobre, que mora no número 8, porém, nunca conhecemos sua casa. O único
abrigo que conhecemos é seu barril. É lá onde ele mora, sem pagar aluguel.
Algum vizinho se importa com a presença do garoto? Não. Mesmo aprontando suas
diabruras, ninguém cogita expulsá-lo da vila pelo simples fato de não se
importar com ele. Qualquer semelhança com o último pedinte que te abordou na
rua não é mera coincidência.
“Vai estudar, moleque! Você tem prova amanhã e está aí
assistindo essa porcaria de Chaves? Você antecipa todas as piadas, já sabe o
final de todos os episódios e fica aí rindo feito tonto. Toma vergonha nessa
cara!” Mal sabiam estes que era lá onde eu mais aprendia. Aulas de Literatura Clássica
mescladas com chavões populares em sua mais pura essência. E após anos
dedicados aos seus episódios, hoje, com 23 anos, consigo conversar por horas
com amantes das obras de Bolaños, utilizando apenas o nosso dialeto Boloñes.
E o que dizer de um herói medroso, sem poderes
especiais, que sempre se da bem no final? Um herói que tem como arma uma
marreta biônica, que em alguns episódios pode ser letal, e em outros parece
simplesmente ineficaz. Enquanto isso, no gigante imperialista localizado
geograficamente acima do México, consolidava-se a imagens de super-heróis e sua
bravura. A cada novo gibi um deles era o responsável por salvar a cidade de
Nova Iorque, os Estados Unidos da América, até o ponto que a pátria não foi o
suficiente para eles e tiveram de se arriscar a salvar o planeta com seus
poderes além-humanos. Era a síntese da política norte-americana em quadrinhos.
Nosso herói, humildemente, sofria para combater o
sorrateiro pirata Alma-Negra, a malvada Bruxa Baratuxa, os perigosos bandidos
Tripa-Seca, Quase-Nada, Racha-Cuca, Pistoleiro Velez, Mão-Negra e Poucas-Trancas, o assustador
fantasma Riacho Molhado, o "Abomineve Homem das Naves", o Bebê Jupteriano. Uma coleção de
vitórias invejável! Um herói que não impõe respeito, em um cenário onde tudo é
de isopor, tal qual seu país, sempre à sombra das grandes produções
norte-americanas. Sua maior qualidade não era triunfar sobre o inimigo, sua
maior qualidade era sua astúcia. Não à toa o vermelho era sua cor.
Quarenta anos após o surgimento dos personagens Chaves
e Chapolin, o México ainda não resolveu problemas como a pobreza, narcotráfico,
violência e analfabetismo. Basta uma olhada nos diários internacionais e
veremos que os mexicanos ainda não resolveram sequer o problema do
desaparecimento dos 43 estudantes da cidade de Ayotzinapa. Nas palavras do
ex-presidente uruguaio, José Mujica: “um Estado falido”.
Uma nação - não diferente da nossa - carente de identidade;
uma nação carente de heróis. Bolaños está longe de ser o salvador da pátria,
mas a devoção daqueles que deram volta olímpica no colossal estádio Azteca,
tendo seu corpo como troféu, é o maior símbolo de sua herança positiva ao país.
Em outras palavras, Roberto ajudava a confortar a árdua tarefa de ser mexicano.
Descanse em paz, Polegar. Nós, os bons, jamais
esqueceremos seus jargões e seu legado na Terra. E jamais deixaremos de rir com
sua sofisticada maneira de entreter.
“Prometemos despedirmos sem dizer adeus jamais. Pois
haveremos de nos reunirmos muitas, muitas vezes mais”
