sábado, 19 de outubro de 2013

Brincando de Jorge Furtado

    Gabriel é um marmanjo. Ele tem 19 anos e acabou de terminar o ensino médio. Como recompensa sua mãe lhe comprou passagens para Liverpool.
    Liverpool é uma cidade da Inglaterra. A capital da Inglaterra é Londres. A Inglaterra faz a parte do Reino Unido. Além da Inglaterra o Reino Unido é composto por Escócia, País de Gales e Irlanda do Norte. A capital do Reino Unido é Londres, mas isso não significa que a capital da Escócia, Irlanda do Norte ou País de Gales seja Londres. A capital da Escócia, por exemplo, é Edimburgo. É comum ver um homem usando saia na Escócia. Belfast é a capital da Irlanda do Norte e Cardiff é a capital do País de Gales. Lá os homens não costumam usar saias.
    Por não saber essas informações Gabriel repetiu a sexta série. Ele não atingiu a média necessária na disciplina Geografia e por isso vai precisar refazer a sexta série em um novo ano letivo. Ano letivo corresponde ao período de um ano em que você está devidamente matriculado em um colégio e cumprindo com suas atividades escolares.
     Quando finalmente passou da sexta para a sétima série Gabriel voltou a relaxar nos estudos e não atingiu a média necessária em Matemática. Isso fez com que Gabriel repetisse a sétima série. No colégio Santa Rita de Cássia a média que determina se um aluno passa ou não de ano é feita através de um balanço bimestral. Bimestre é uma unidade de tempo que marca dois meses. Gabriel sempre se questionou por que o nome ”bimestre” sendo que o intervalo entre um bimestre e outro é de três meses. Por não saber a resposta para essa e outras questões Gabriel acabou reprovando, também, na disciplina Raciocínio Lógico. A nota da primeira prova bimestral de Gabriel foi somada à nota de sua segunda prova no mesmo bimestre e dividida por dois. Divisão é uma operação matemática onde você reparte um todo para criar partes iguais. A divisão mais famosa da história da nossa humanidade foi feita por Jesus Cristo quando multiplicou determinada quantia de pães e depois dividiu entre seus discípulos. Antes de dividir Jesus multiplicou. Multiplicação é uma operação matemática onde você multiplica dois números e obtém um produto final.
    Existem pessoas que não acreditam em Deus. Deus é o pai de Jesus Cristo. Jesus foi um ser humano. Deus não é humano, é um deus. Existem pessoas que não acreditam em Deus. Eles são chamados ateus. Os ateus acreditam que a divisão mais famosa da história da humanidade foi a divisão feita em Berlim no ano de 1961. Na ocasião foi construído um muro no meio da cidade, separando o lado Ocidental do lado Oriental. O ato foi considerado desumano. Desumano é aquele que não é humano, igual foi Jesus e igual a Gabriel, que por não saber essas informações acabou reprovando na disciplina de História.
   História é uma ciência que estuda praticamente tudo. Desde os primórdios da nossa sociedade, em uma época onde praticamente não tinha o que se contar, até os dias de hoje. Na primeira prova bimestral de História Gabriel tirou 3,7. Na segunda prova ele tirou 6,1. Somando 3,7 + 6,1 chegamos no produto 9,8. Para não ser reprovado Gabriel precisa que essa soma dividida por dois seja maior ou igual a 6. Caso seja maior ele está aprovado na disciplina. Caso seja menor Gabriel está reprovado. O cálculo é o seguinte:

3,7 + 6,1 = 9,8 ÷ 2 = 4,9.

Foi assim que Gabriel reprovou em História, Matemática e Raciocínio lógico na sétima série.

    Liverpool também é mundialmente conhecida por ser a terra dos Beatles. Beatles é o quarteto mais famoso da história da música. Música é uma combinação de sons que harmonizam entre si, podendo ser encontrada em vários estilos. Os Beatles tocam rock. Rock é um estilo musical. Existem pessoas que não gostam de rock. Para eles o quarteto mais famoso da história é o Quarteto Fantástico. Quarteto Fantástico é um grupo de Super Heróis das histórias em quadrinhos. O sucesso nos quadrinhos fez com que uma versão do fantástico quarteto fosse produzida nos cinemas. Cinema é a arte responsável por captar imagens e projetá-las para o público. O primeiro filme projeto ao público foi feito em 1885 pelos irmãos Lumière, na França. O filme mostrava um trem chegando a uma estação. O espanto do público perante tamanha novidade para a época foi tão grande que reza a lenda que algumas pessoas abandonaram a sala correndo com medo de que o trem as atingisse.
    Os Beatles começaram sua carreira em 1960. 1960 foi o primeiro ano da década de 60. Década é o período correspondente a dez anos. 1960 foi um ano feliz para o cinema. Foi quando o diretor Billy Wilder lançou o filme Se meu apartamento falasse. Na ocasião ninguém fugiu da sala de cinema por que no filme não aparece nenhum trem. E mesmo que tivesse aparecido um trem as pessoas não sairiam correndo, amedrontadas, por que já estão acostumadas com as salas de cinema e sabem que é humanamente impossível um trem atravessar a tela. O Cinema faz parte da história.
     1960 foi um ano triste para os chilenos. Chileno é o gentílico para quem nasce no Chile. Chile é um país localizado na América do Sul. Gentílico é um adjetivo pátrio para qualificar pessoas naturais de determinada região. Adjetivo é uma palavra que demonstra uma qualidade de algo ou alguém. Logo, quem nasce no Chile tem a qualidade de chileno. A capital do Chile é Santiago. Diferente da Inglaterra, Escócia, País de Gales e Irlanda do Norte, o Chile não faz parte do Reino Unido. E 1960 foi ano triste para os chilenos em função dos Sismos de Valdivia. Sismos são deslocamentos de terra ocasionados pela ação das placas tectônicas colidindo entre si. Esse movimento acarreta na formação de maremotos, terremotos e atividades vulcânicas. O Sismo de Valdivia foi responsável pela morte de quase 6 mil pessoas, além de deixar 2 milhões de feridos. Terremotos são comuns no Chile pois o país se encontra entre duas placas tectônicas: Nazca e Sulamericana. Essa tragédia atingiu 9,5 pontos na escala de magnitude de momento. Nenhum outro terremoto atingiu tantos pontos na escala de magnitude de momento, o que torna o Sismo de Valdivia o maior terremoto da humanidade. Hoje, o Sismo de Valdivia faz parte da história.
    Em 1960 Gabriel não era nascido. Mesmo assim, Gabriel é fã dos Beatles. Isso mostra que Beatles faz parte da história. Em 1960 Berlim era uma cidade unificada.  
     Já em Liverpool, Gabriel quis conhecer um pouco mais sobre a história de sua banda favorita. Ouviu dizer que os Beatles eram jovens responsáveis, ícones de uma juventude regrada, os genros dos sonhos de qualquer pai de família. Sabia, também, que com o passar dos anos os rapazes deixaram o cabelo e a barba crescer, usaram drogas escondido, viajaram para a Índia, usaram drogas declaradamente, fizeram filme trash, fizeram o maior sucesso sem jamais perder a alcunha de bons moços.
     Gabriel sentiu que poderia deixar o clima mais propicio se fizesse uso de uma das substâncias ilícitas que seus ídolos usaram no passado. Conversou com pessoas, demonstrou abertamente quais eram suas pretensões e por um preço abusivo conseguiu uma pílula de LSD. LSD é um alucinógeno. Alucinógenos são substâncias que alteram o sistema nervoso causando distorção da realidade e paranóia. No caso do LSD, que é uma substância sintética, os efeitos mais comuns são alterações de sentidos visuais e sensoriais. Os usuários, enquanto sob o efeito da droga, são incapazes de enxergar com nitidez e perdem parcialmente a noção de tempo e espaço. Fisicamente, a pupila se dilata, a boca seca e a pressão arterial aumenta. O LSD foi descoberto por acaso em 1943. O responsável pela descoberta foi o cientista Alfred Hofmann. Hofmann nasceu na Suíça, em 1906. Portanto, quando Hofmann nasceu Berlim ainda não havia sido dividida, os Beatles ainda não faziam sucesso e Gabriel sequer era nascido. Mas a partir da descoberta do dr. Hofmann a vida dos Beatles e a de Gabriel surtiriam uma mudança.
    Os Beatles viram no LSD uma forma enrustida de se divertir e dizer ao mundo o quão correto e irreverente você pode ser. Esse período foi considerado o período Psicodélico dos Beatles, apontado por muitos como o ápice da banda. Geralmente, quem não aponta o período psicodélico como o auge dos Beatles aponta o começo da carreira como o auge. Também conhecido como período comportado do quarteto. Mas para Gabriel o LSD está representando uma aventura. Em um instante ele estava no quarto de hotel e agora ele está na sala de estar de Ringo Starr tocando cítara com George Harrison enquanto John Lennon e Paul McCartney assistem a tudo de longe. Gabriel está impressionado com as cores, com a limpidez da música. Em 1943, acidentalmente, o dr Hofmann derramou em seu próprio braço uma substancia extraída de um fungo de centeio para absorver hemorragias durante partos. O engano de dr Hofmann é um marco histórico para a Ciência. Ciência é a mãe de todas as ciências, é a ciência que visa ampliar o conhecimento humano em todas as áreas. Geralmente, um cientista não acredita em Deus, o que o torna um ateu. Gabriel não é ateu, portanto, após algumas horas com seus ídolos ele não se sente bem e pede a Deus que sua viagem termine por ali.
   Na manhã seguinte Gabriel acorda sem entender o sonho que teve na noite anterior. Gabriel teve um surto de loucura inexplicável ocasionado pelo uso indevido de uma substância que ele não conhecia. Com o episódio ele perdeu precioso tempo de viagem e descobriu um lado obscuro das estrelas do rock.
   Após o episódio com LSD Gabriel se posiciona de forma madura e pensa sobre a vida. Ele acredita ter passado por uma espécie de Universo Paralelo e ter vivenciado diversas experiências em pouco tempo.  Mesmo assim não sabe dizer se a experiência foi boa ou ruim. Gabriel, assim como muito de seus amigos, é um jovem desempregado e indeciso. Indeciso por conta do que seguir na carreira por gostar de tudo e não saber o que fazer a partir deste ponto. Pessoas iguais ao Gabriel são sonhadores. Sonhadores é a qualidade daqueles que sonham e enxergam além. Enxergar além é uma qualidade para poucos. Gabriel continua sem entender, mas voltando para casa ele pensa em ingressar no curso História.

terça-feira, 1 de outubro de 2013

O melhor sentimento do mundo

   Aos 22 anos de idade me atrevo a dizer que já conheço o melhor sentimento do mundo. Não sei como é a emoção de receber um filho numa sala de parto. Nunca me deitei com a garota mais bonita do colégio. Passei dos vinte sem fazer meu primeiro milhão. Nunca vi a Aurora Boreal. Mas eu já fui ao Morumbi em dia de jogo.
    Sou daqueles que para o carro longe para fugir do flanelinha. Na caminhada rumo ao estádio, ainda longe, já é possível ver um pedacinho do Cícero. O gigante de concreto está lá, como sempre esteve desde 1960, nos esperando de braços abertos para prestigiar o time da casa. É inevitável não sentir um arrepio que vem da planta dos pés e termina no último fio de cabelo. Os olhos vão levemente se marejando, não importa o tamanho da partida.
    Ao meu lado passa um carro. Entre gritos de “É TRICOLOR” consigo ouvir um trecho do hino que toca alto no rádio: “Tu és forte, Tu és grande...”. A camisa é um amuleto. A bandeira nos reveste de preto, vermelho e branco. O ingresso está no bolso. É lá onde mergulho minha mão a cada cinco segundos só para verificar se ali ainda se encontra. Para minha sorte sempre esteve. Passaporte para 90 minutos que podem ser angustiantes ou aprazíveis, porém, jamais indiferentes.
    Uma das cenas que guardo com maior carinho foi a primeira vez que entrei no estádio. O vão dos portões que dão acesso às arquibancadas trazem um pequeno trecho do campo. O suficiente para deixar o meu queixo no chão. Foi assim na primeira vez. Foi assim na última vez. Na próxima não será diferente, garanto.
    Antes de começar a partida tem radinho de pilha, pipoca, tremoço, amendoim, água, sorvete e salgadinhos. No campo tem equipe de reportagem, comissão técnica, jogadores fazendo aquecimento e crianças cobrando penalidades. Crianças que são jovens demais para saber que pisam em solo sagrado, solo de muitas conquistas e algumas derrotas. Todas inesquecíveis. Os times vão a campo entre aplausos para uns e vaias para outros. A escalação do time local é cantada pela torcida. A bola rola, a bola para, o primeiro tempo acaba, o segundo tempo acaba, mas emoções nunca terminam num estádio de futebol. A saída é uma marcha da vitória quando o resultado é positivo. Quando o resultado é negativo a marcha é fúnebre.
    No carro, de volta para casa, o assunto não é outro senão o gol marcado, o gol perdido, o cartão mostrado, os pontos perdidos. Já em casa, vendo os gols da partida, a vontade agora é de controlar o tempo e trazer a próxima rodada o mais rápido possível para viver tudo isso de novo como se fosse a primeira vez.
    Problema de verdade é quando você fica longe do seu clube. Sou fanático sim, mas não sou daqueles que viaja para ver o time em outro estado. Daqui eu já sofri pelo meu time quando ele enfrentou nada menos que a pior fase de sua história. E também de longe me fiz presente em uma conquista. Sabem uma coisa que nunca vai mudar? O melhor sentimento do mundo. Descobri que não importa o time, não importa o país, tendo o futebol como foco nunca terá nada melhor que uma ida ao estádio.
    O tricolor sai de campo para ceder o espaço em meu coração aos Boys in Green, no estádio Aviva. A seleção irlandesa carrega uma responsabilidade teoricamente maior que a do São Paulo Futebol Clube, pois se trata de uma nação em busca de uma vaga para uma Copa do Mundo. A população irlandesa é de aproximadamente 5 milhões de pessoas. Pegue o número de irlandeses morando no país e multiplique por três. É igual o número de torcedores do São Paulo. Pegue a qualidade dos jogadores do São Paulo, divida por três e o resultado é igual à seleção da Irlanda.
    Durante a partida contra a Suécia ficou clara a falta de qualidade da esquadra verde comandada pelo italianíssimo Trapattoni. Um time que abusa das ligações diretas e do talento individual de Robbie Keane. Para os irlandeses o ídolo maior. Os garotos em verde perderam de virada para os garotos em amarelo. O gol irlandês foi “achado” após a perdida zaga sueca apenas olhar uma troca de passes e arremate a gol, defendida por Isaksson, concluída por Keane no rebote. Acredite, estava fácil marcar aquele gol.
   Quem desequilibrou mesmo foi Ibrahimovic. Sem a bola nos pés o gigante narigudo mostrou muita inteligência tática, sempre bem posicionado. Com a bola nos pés inverteu a função de centroavante para trabalhar de garçom na partida. Com muito sucesso, Ibra sempre conseguia deixar um de seus parceiros na cara do gol. E foi assim que a Suécia virou o marcador e deixou Dublin com um gostinho de guaraná com açaí na boca.
   Durante o jogo era comum ouvir os irlandeses incentivando seus 11 guerreiros com o tradicional gritou de “C’mom You boys in Green”. A música começa lenta, no mesmo ritmo da vinheta do Pedro de Lara em programas do Silvio Santos. Em seguida o grito se torna mais alto e mais agitado. Impossível não se contagiar e não cantar junto. Uma pena não ter surtido efeito nas quatro linhas.
   Mesmo com a derrota na bagagem a experiência no Aviva Stadium foi inesquecível. O estádio apresenta uma estrutura arrojada. É como se uma nave espacial estacionasse em plena cidade. Teria capacidade para cerca de 70 mil pessoas, mas os vizinhos pediram uma redução alegando falta de luz solar em suas residências. Curioso. Me fez pensar em como o povo tem poder.
    Comprei meu ingresso online e retirei na bilheteria com facilidade. Quando em dúvida sobre por qual portaria deveria prosseguir, profissionais me indicaram a direção correta. Dentro do estádio tinha hambúrguer, cachorro quente, bata frita com vinagre, Fish’n’chips e Pepsi. Senti falta dos amendoins. Sentei na cadeira designada a mim, como mostrava meu ingresso.  Vi a partida perfeitamente, sem pontos cegos. 50 mil pessoas. 50 mil vozes. Um show de cores. O interior do estádio impressiona.
   O interior do estádio realmente impressiona, mas o que ficará para sempre em minha retina foi aquele primeiro encontro com o estádio. Ainda longe dele, me fez sentir como se tivesse 10 anos novamente e estivesse chegando ao Morumbi pela primeira vez. Contive a emoção e enquanto tomava minha pint de Guinness só conseguia pensar no quanto eu amo Futebol.