quarta-feira, 12 de fevereiro de 2014

Mero achismo

   Gabriel é uma pessoa curiosa. Um cara que gosta de comentar sobre assuntos que intrigam a todos, mas, que de uma forma misteriosa para ele, tornam-se intocáveis.
   Um dia, antes de ir para a cama, Gabriel olhou-se no espelho do banheiro e se perdeu no alto de seus pensamentos. Ele mirava atenciosamente o seu reflexo, mas sua mente não estava lá. Ele pensava, num flash de segundos, em todas as pessoas que havia conhecido em sua vida. Toda e qualquer alma que havia cruzado seu caminho direta ou indiretamente ao longo de seus vinte e um anos.
  Constatou que era impossível. Mas permanecia inquieto.
   Horas antes, voltando de seu trabalho, indagava a si próprio o porquê de tamanha cobrança social para tornarmo-nos pessoas melhores. Cidadãos exemplares, pais de família, homens de honra, mulheres de respeito. Por que não apelar para um sistema anárquico, onde as vontades imperam? Mas percebeu que sequer sabia o conceito de Anarquismo. Passou então a se indagar qual era realmente a importância do comportamento social quando a preguiça é mais forte.
   Gabriel pensou em vender todas as suas posses e reverter em flores e sair distribuindo pelo seu bairro. Ele morreria pobre, mas satisfeito por ter aberto o sorriso de uma moça apaixonada que recebeu flores anônimas numa terça feira à tarde. Mas lembrou-se que não possui terras e nenhum outro patrimônio em seu nome. E ainda pensou na dificuldade em vender tudo, comprar uma estufa gigante e cuidar, diariamente, dos milhares de pezinhos de flores que cultivaria.
   Pensou então em fazer nada. Quem passou por sua vida já se foi, ficou no passado. Para ele, vale mais a pena fazer uma pessoa eternamente feliz do que provocar um sorriso hedônico numa quinta feira de manhã.
    Começo a achar que Gabriel tem razão.

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