Há um tempo eu era tomado por um patriotismo que apenas surgiu e foi crescendo ao longo do tempo. A medida que o sentimento foi ganhando forma eu comecei a me perguntar até que ponto eu era retribuído. Optei por sair do país. Acreditei que passar um tempo longe me tornaria mais experiente a ponto de julgar minha nação com olhos críticos e, indiretamente, sanar a necessidade humana de busca por um lugar ideal.
Após vinte meses morando em Dublin, na fria Irlanda, ainda não sei se obtive conhecimento suficiente para comparar com o Brasil. Aliás, pode ser que o tempo que passei pela ilha verde não ofereça credenciais sequer para tratar sobre Irlanda. Mas seguro nas mãos do sendo comum e os presenteio com minhas impressões.
Começando, talvez, pelo delicado e já abordado tema: patriotismo. Mesmo há 10 mil kilômetros de casa nunca me senti longe, tamanha presença massiva de brasileiros em Dublin. Gente de todos os cantos do Brasil. Várias raízes em comum, porém, diversos pontos de vista. Foi comum encontrar jovens, recém formados ou não, em busca de uma nova experiência enquanto "perdidos" na vida. Foi comum encontrar pessoas mais velhas, recém formadas ou não, em busca de uma nova experiência enquanto "perdidos" na vida. Para o meu alívio. Para o meu desespero.
Em uma dessas conversas de pub me disseram que quem sai do país de origem, geralmente, foge de algo. Fui obrigado a concordar em termos. Ainda não sei o motivo da minha fuga, mas gosto da alcunha de fugitivo. A maior fuga, talvez, seja da cidade gigante onde cresci ou o próprio peso do fardo. Outra semelhança dos que aqui encontrei é o recomeço. Inevitável para cada um de nós. E devo confessar que sentia inveja daqueles que voltavam com a cabeça feita. E, às vezes, certa piedade por eles.
Nessas horas eu via emergir a figura de um vilão com pinta de herói. Ele que traje roupas velhas, sinais de castigado pelos maus tratos. Seu gosto é azedo e seu aspecto é áspero. Capaz de criar e destruir com a mesma facilidade. Guarda um poço de sentimentos felizes ora raivosos. Pode ser facilmente reconhecido pelo largo sorriso que sempre carrega no rosto e atende pelo nome de povo de brasileiro.
Nossa maior herança, nosso maior trunfo. Nós que em meio há uma selva de misturas podemos facilmente nos reconhecer na multidão. Nós que ganhamos fama internacional com o nosso jeito. Os mesmos que elevam e denigrem. Todos donos da verdade e cada um em busca da mais confortável para acreditar. Basta um olhar para reconhecer. Mas faltariam palavras no dicionário para classificar.
Não sei se sou exemplo do bom brasileiro. Não conheço o dito cujo. Sou exemplo de amor e esperança. Talvez fosse exemplo de fé, se ao menos tivesse em quem depositar. Seria difícil explicar coisas que vivi. Meu único desejo é voltar e ser o exemplo. Exemplo de mim, para eu mesmo. Por o Brasil no peito e fazer da minha forma. Um comentário no balcão da padaria não muda, só ofende. E se o jeitinho incomoda, por que não testar de outra maneira?
Travamos batalhas diárias, mas a guerra já está perdida há muito tempo e dentro da gente. Bastou uma saída para limpar as lentes que me fazia enxergar o belo e descobrir que é bizarro. A mesma lente crítica que me faz ver além. País do futuro há anos. E esse futuro que nunca chega.
Se o tempo não é gentil com a gente, é esse mesmo tempo quem virá, e quiçá, venha com boas notícias. Pode ser que não mude para um todo, mas a mudança fundamental já começou. Não é preciso sair do país para evidenciar seus benefícios e malefícios. A mudança fundamental começa de dentro. Custa nada, mas se não vier pode ter um custo alto e o troco vem em bala.
Lá se passaram vinte meses. E eu que sempre pensei nesse artigo ainda não sei como terminá-lo. Talvez não mereça um fim; as opiniões estão sempre mudando. Sou grato, pelo menos, por ter conseguido começar. Difícil resumir todas as experiências. Mais difícil ainda não apelar para o lado social. O peito estava cheio e casou perfeitamente com o branco do papel.
Para terminar com cara de blog às moscas que o rodeia, deixo um tutorial para o modelo de sociedade utopicamente perfeita em que quero viver:
.deixe a esquerda livre;
.sinalize quando no trânsito;
.peça por favor e agradeça;
.não fume em lugares fechados;
.jogue o lixo no lixo;
.não fure filas;
.respeite;
Parece simples de seguir, mas há momentos em que fraquejamos. Prometo que vou tentar seguir à risca, mas garanto que jamais perderei a essência que construiu o que sou: brasileiro com muito orgulho, obrigado.
http://monologodafuga.tumblr.com/post/85934672364/quando-a-gente-se-vir-de-novo-o-ano-ja-vai-ser :)
ResponderExcluirQuero sempre brincar de adiar o futuro com você, L.
ExcluirS2
Belo relato, Fernandinho.
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