terça-feira, 23 de maio de 2017

Com o futebol, onde o futebol estiver

   Ainda era 15h30, mas já escurecia. Outono europeu é assim. Inverno é ainda pior.
   Passeando pelo parque alaranjado, que fica próximo à minha casa provisória, em Castellanza, poucos minutos de Milão, as folhas caídas forravam meu caminho enquanto o inóspito vento parecia rasgar a carne de meu rosto.



Toc – toc - toc


Eu conhecia aquele barulho de algum lugar.


Toc – toc – toc...Piiiii...Porca troia! Va studiare le regole, arbitro!


   Sim, eu conhecia aquele barulho muito bem. E mesmo com meu italiano precário, reconheci o bramido indignado com a marcação de uma falta.  



   Ergui a cabeça e reparei a existência de uma arquibancada de ferro além do emaranhado de folhas abóbora. Era futebol, mas parecia um combate entre gladiadores num anfiteatro lombardo. Tinha até atores. O camisa 8 dos blu, um carequinha bem acima do peso,  ia para o chão a cada jogada. E a cada queda ele levava as mãos ao joelho, em profunda dor. E lá ia o árbitro, em seu arrojado uniforme rosa, distribuindo cartões para os gialli. O Diego, lateral-direito, foi para o chuveiro mais cedo após uma dessas entradas no gordinho, para a decepção de alguns torcedores que cantavam o nome do camisa 2 quando ele tocava na bola.
   E a torcida não perdoava. Me fizeram acreditar que aquela não era uma simples partida. Devia se tratar de uma final, ou, no mínimo, uma semi, pois os ânimos estavam exaltados demais para um amistoso. Jogadores e comissão técnica, também nervosos, gritavam entre e si e reclamavam após cada passe errado. Ou seja, a cada três segundos.
   Um senhor, de aproximadamente 60 anos, sucumbiu à pressão dos adversários e acabou abandonando a arquibancada, aos xingos, sem ver o gol de falta de que o camisa 7 dos gialli marcou. Batida consciente, no canto do baixinho goleiro dos blu, que no auge de seus – aproximadamente - 1,70m, nada pôde fazer.
   Mais tarde foi a minha vez de abandonar a arquibancada. O vento insistia em nos desconvidar a ficar e assistir ao resto da partida. Além do frio, a falta dos cachorros invadindo o gramado, das crianças batendo bola no campinho de terra anexo, do churrasco e do pagode não nos convidava a ficar para matar um pouquinho da saudade de casa.
   Mas o futebol, este sim estava em campo. E em sua mais bela forma: nos gestões, nas reações, na cólera, na alegria. Sentimentos que só cabem nas quatro linhas e nas arquibancadas, não importa em qual parte do mundo você esteja. Então, se é lá que tem futebol, é lá onde estarei no próximo domingo, no mesmo horário, com a velha paixão de sempre e com uma jaqueta a mais.
 



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