quinta-feira, 29 de junho de 2017

Nove Copas

   Parecia infindável, mas em 28 e junho de 2017 teve fim um processo que começou em 1885, quando nasceu Giovanni Andreazza, o antenato. De lá para cá muita coisa mudou. Principalmente o sobrenome que carrego. Mas o sangue que corre em minhas veias continua o mesmo do meu bisavô.
   Muitos se interessam pelo benefício, muitos perguntam como funciona o processo. Então, para ajudar - e para agradecer -, ecco il testo. 
   Em 2013, durante meu intercâmbio em Dublim, na Irlanda, era comum alguns amigos viajarem para Itália em busca do reconhecimento como cidadão. Eu não fazia ideia, mas estava vivendo o boom da cidadania. E boa parte desses camaradas perguntava:

“E você, Antonioli, não vai tirar, não?”

   Nunca me interessei. Sempre achei que o Brasil seria o cenário para meus sucessos (e insucessos) profissionais, educacionais, culturais e sociais.  Lá fora seria só para passeio.   
   Mas aí veio a crise do jornalismo, a crise global, a crise do Oriente Médio, a crise dos refugiados, a crise da política brasileira, a crise da crise da política brasileira e a situação beirou o insustentável. O receio dos países europeus fecharem as portas era grande, então achei melhor correr. Hoje, percebi algumas mudanças no âmbito geopolítico. Se tivesse que dar uma dica para quem pretende reconhecer a cidadania, diria para ficar tranquilo, mas nem tanto.
   Outra dica aos interessados é paciência. E muita! A busca por documentos no Brasil não é fácil, mas passa longe de ser um problemão. É preciso conhecer as próprias origens, traçar informações com parentes, analisar certidões e interpretá-las.
   No meu caso, precisei localizar as certidões de nascimento e casamento de meu bisavô, de minha avó e da minha mãe (nascida em 1956). Exceção à certidão de nascimento de meu antenato, vinda diretamente do comune de Quero, na província de Belluno, em Vêneto, na Itália, todos os documentos foram solicitadas no interior de São Paulo e na capital.
   Ainda no Brasil, fiz as devidas retificações, traduções e as malas. Menos de um ano após começar as buscas, eu já embarcava para a Velha Bota. Por não falar italiano, optei por contratar uma assessoria para me ajudar no processo.


 Arte urbana em Cinisello Balsamo: Você é bonita como o gol do Icardi no dérbi


   A realidade de quem viaja para reconhecer a cidadania é muito diferente de quem viaja a lazer. Na realidade, a condição de quem aguarda o processo é, geralmente, angustiante. Eu tive a sorte de dividir casas (acostume-se com a rotatividade delas!) com pessoas amigáveis, que orientavam, apoiavam, instruíam, e, em forma de gratidão, eu tentava retribuir a ajuda recebida com quem ia chegando.
   A princípio, a ideia era aproveitar o tempo longe para absorver a cultura local, já que estava prestes a me tornar italiano. Aprender o idioma também era bem-vindo. Talvez repensar as escolhas profissionais, o mercado, o futuro acadêmico, quem sabe até colocar aquele velho plano de volta à tona. Mas a angústia muitas vezes me inibia disso tudo.
   A demora para confirmar residência, a espera pelo famigerado vigile urbano, a lentidão para o envio da não-renúncia e a volta da não-renúncia para a Itália foram etapas desoladoras. Meu processo levou quatro meses. Mas não seria exagero dizer que pareceram quatro anos. A passagem de volta para o Brasil foi perdida. O tempo foi passando e as despesas iam aumentando. Transformar Real em Euro e sobreviver com o que tem é só para quem consegue conter os ímpetos que satanás insiste em colocar em nossa frente, tipo um maravilhoso par de tênis, que antes custava 90, e agora custa apenas 29,90. Haja controle!
   Mas, como diria um outro Fernando: “tudo vale a pena se a alma não é pequena”.  Assim que fiquei sabendo da chegada da minha documentação, assim que assinei minha carta d’identità, assim que testemunhava a conquista de cada amigo (que nessa altura já era um familiar), a alegria era incontida.
   Valeu a paciência, valeu o apoio de grupos, amigos, assessores, parentes e da namorada, claro, porque foi difícil segurar essa barra que é ficar sem ela!

   O que o futuro reserva eu saberei apenas amanhã. Hoje, quero apenas comemorar meu recém-chegado passaporte e minhas quatro Copas retroativas.


Itália, campeã mundial 2006

Um comentário:

  1. Parabéns Antonioli. Um abraço de outro Antonioli, que também está em busca das origens. Melhor dizer de 50% dela, os outros 50% eu já achei mas para resolver só via judicial na Itália.
    Gostei muito do texto.

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