Uma vez me disseram: "Fernando, escreva sobre sua viagem a Liverpool."
Escrever foi umas das atividades que mais pratiquei quando visitei Liverpool . Além de andar pela cidade, tomar cerveja e ouvir Beatles. Por motivos de muitas cervejas tomadas, sequer lembro o que escrevi. Aposto que nada de muito valor.
O que trouxe comigo daquela cidade foi uma vontade imensa de voltar. E outra grande vontade: escrever sobre a viagem. O problema é que na época era uma tortura escrever sobre esse assunto. Toda vez que sentava, pegava papel e caneta, logo no primeiro paragrafo já era tomado por uma nostalgia de sete cabeças que me devorava a alma e apertava o coração. Hoje, recuperado, embora ainda com saudade, me arrisco a escrever sobre a experiência. Mas ainda acho difícil encontrar palavras para descrever Liverpool.
Vasculhando uns versos e outros textos que encontrei - frutos do período que fiquei na cidade - é inevitável não esbarrar em Beatles logo nas primeiras memórias. Sempre gostei do quarteto, mas nunca fui um fã de carteirinha, um beatlemaníaco. Uma vez em Liverpool, o difícil é não sair de lá Beatlemaníoco.
Tive a chance de conhecer o museu da banda. Museu, aliás, composto por dois prédios. E garanto não ser o suficiente para hospedar tamanha devoção. O museu principal, The Beatles Storry, como o nome sugere, registra toda a história da banda desde os tempos em que os Beatles eram meros garotos de Liverpool que ainda não se conheciam.
O outro prédio, localizado à beira do cais da Misericórdia, exibe uma animação em 3D sobre um garoto que tenta chegar ao show de sua banda a tempo da apresentação. Para isso, ele conta com a ajuda de um submarino amarelo - operado por um por um comandante louco de ácido - para atravessar a baía. Um "must see" para quem visita a cidade.

Durante a noite saí para descobrir o que a cidade oferece além de Beatles, mas acabei me rendendo ao Cavern Club. O local foi palco das primeiras apresentações do grupo, além de outras bandas influentes no cenário liverpuldiano, como Gerry and the Peace Makers, e nacional, como The Kinks. Cerveja muito boa, música de qualidade, acabei voltando ao Cavern Club na noite seguinte. Infelizmente passei apenas dois dias na cidade. Em caso de terceiro dia, voltaria certamente à caverna.
E para não dizer que não falei de futebol, visitei o Anfield Stadium - casa do meu freguês Liverpool FC - onde recebi uma aula de hospitalidade. Vestido com meu manto preto, vermelho e branco fui logo reconhecido pelo recepcionista que me disse com inglês quase imcompreensível: "Ainda me lembro daqueles três gols anulados em 2005". Sorri. E com meu inglês pouco compreensível disse que estava alí como um fã, não inimigo. A camiseta era apenas um amuleto.
Ele claramente se referia ao dia 18 de Dezembro de 2005, o mais feliz da minha vida futebolística, quando o São Paulo FC bateu o Liverpool FC por 1x0 e sagrou-se tricampeão do Mundo.
Subi as escadas que me levavam até o museu do time. Logo na porta fui surpreendido com um comentário: "Do Brasil, né? Por aqui ainda não esquecemos aquele jogo de 2005". Um sujeito alto, careca e muito simpático foi logo dando seu cartão de visitas. Minha resposta estava na ponta da língua: "Me veja como um fã, não um inimigo!". Após uma breve conversa, o sujeito retira o celular do bolso e mostra fotos com um amigo brasileiro, o goleiro Diego Cavaliere, ex jogador do Liverpool. Disse que eram amigos pessoais e que até os dias de hoje, três anos após a saída de Diego do Liverpool, eles mantêm contato. Me lembro que o gentil funcionário ficou surpreso quando lhe disse que o Fluminense, atual time de Cavaliere, estava prestes a ser rebaixado no Campeonato Brasileiro. Mal sabia eu o desfecho que o campeonato levaria...
Pedi para tirar uma foto com ele em frente ao símbolo do Liverpool FC, em mostra de gratidão. O senhor caminha até uma sala, onde pede a outro funcionário que tire uma foto nossa. Um jovem caminha até nós e antes mesmo que eu esboçasse qualquer reação ele dispara: "Sal Palo? Hunf...2005..."

O Anfield Stadium suporta 45 mil torcedores. É um estádio grande, mas não é grande o suficiente para o tamanho do clube. Mesmo assim, gostei da forma como os atuais dirigentes mantêm as instalações do clube, alegando que no passado as glórias foram conquistadas com essa mesma estrutura, não havendo motivo para serem alteradas. Uma mistura de saudosismo com superstição. De qualquer forma, o estádio é de fácil acesso e conta com um vasto estacionamento para melhor receber seus torcedores. Serve de lição para muitos estádios brasileiros.
Não sou engenheiro, designer, arquiteto, ou qualquer outro profissional que se atraia por construções, prédios, traços e afins, mas a estrutura de Liverpool impressiona. Os altos prédios dão ares de imponência à cidade. No topo do Royal Liver Building, o mais charmoso dos edifícios, é possível enxergar o Liverbird, pássaro que é o símbolo de Liverpool. No centro, minha atenção foi tomada pela torre de rádio local. Com 140 metros, é o segundo maior monumento da cidade.

Mas, o prêmio de construção mais impressionante vai para a Catedral de Liverpool. Pesquisei recentemente quais eram os maiores edifícios religiosos do mundo e o resultado parece dúbio. Aparentemente, a Catedral de Liverpool é a sétima maior do mundo em volume. Embora pareça muito alta para mim, essa igreja é facilmente superada por outras em altura. A diferença é que a Catedral de Liverpool não conta com uma torre tão alta como a Catedral de Ulm, por exemplo. Enfim, a Catedral de Liverpool tem 100 metros de altura e é possível se perder no seu interior. Se a intenção da igreja era fazer o homem se sentir pequeno perante Deus, o objetivo foi conquistado com êxito em Liverpool.

Para conhecer tantos lugares foi preciso um sistema de transporte eficaz e econômico. E nesse critério Liverpool também não deixou a desejar. Por apenas £3,10 comprava meu ticket diário de ônibus e com ele andava pela cidade inteira. Ônibus confortáveis, espaçosos e jamais lotados, mesmo durante as imperceptíveis horas de pico. Metrô também tinha, mas foi desnecessário mediante eficiência do sistema de ônibus. O Merseyrail tem 120 kilometros de extensão e começou a ser construído nos anos 60. Liverpool conta com meio milhão de habitantes. Qualquer comparação com o metrô de São Paulo me deixa desiludido.
Falando em Brasil, encontrei um pedacinho de casa por lá. Para minha surpresa, o artista Crânio esteve em Liverpool, também em 2013, mostrando seu talento ao mundo. O que me deixou bem orgulhoso.

Enfim, uma cidade que surpreende a cada cruzamento dobrado. Longe de Liverpool meus dias se tornaram mais tristes. A batida dos Beatles tornou-se melancólica. Uma possível volta me alegra. Mas até lá meu coração ficará à deriva no Oceano da saudade, feito Titanic, que saiu de Liverpool e nunca mais foi o mesmo.