sexta-feira, 3 de janeiro de 2014

Chega uma hora

Chega uma hora em que o menino para de gostar de futebol.
Aquela hora em que ele cresce e descobre que seus ídolos são feitos de pau.
A bola vai para escanteio.
O diário de esportes fica esquecido na pilha de jornal.
A camiseta do time embolora no armário.
Nas conversas entre amigos parece mais interessante falar de política, religião e garotas.

A mãe desconfia das silenciosas tardes de domingo.
O primo precisa encontrar outra companhia para ir ao estádio.
O pai simplesmente não acredita.
"Esse menino está diferente", comentam.
O pôster de campeão atrás da porta do quarto não existe mais.
Se perguntar qual o jogo de hoje a noite, ele não sabe a resposta.
Pior, quando questionado para qual time ele torce, apenas desconversa:
"Torço para time nenhum. Futebol? Futebol é perda de tempo."

Os amigos de infância, trazidos por intermédio do futebol, já não vê mais.
A busca frenética por contratações no começo de cada temporada, já não importa mais.
Diz a todos os cantos que os atletas são "uns vendidos",
"no futebol não existe mais amor à camisa", "é tudo dinheiro"
Alega que antes mesmo de começar o campeonato já está decido quem será o campeão.
Reclama da falta de organização do calendário nacional.
E não se conforma com empresários roubando as joias dos clubes.
Vendo a briga nas arquibancadas é relutante:
"bando de animais! Dando a vida por onze caras que nem sabem que ele existe."

Sem o futebol se diz mais feliz.
Não acredita ter sido "enganado"por tanto tempo.
Quando terminar a faculdade de Cinema pensa em se mudar do país.
Viver bem longe de casa.
Bem longe do outrora time do coração.
Futebol para o menino é passado.
Chegou a hora que o menino parou de gostar de futebol.

Ainda bem que essa hora ainda não chegou para mim.

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