Com muita tristeza eles entraram na casa do finado. Foram até o quarto e selecionaram o mais belo terno que encontraram. Tudo sem dizer uma palavra.
O neto caçula, de aproximadamente oito anos de idade, queria romper o silêncio, mas sabia que suas palavras imaturas não confortariam os corações desolados. Preferiu continuar calado. Um atrás do outro, os familiares deixaram o quarto. O neto foi o único que permaneceu.
Abriu gaveta por gaveta. Abriu todas as portas do armário grande, dividido igualmente com a esposa, falecida anos antes e mantido intacto desde então. Exceção feita ao vestido azul, com o qual fora enterrada.
O menino deixa o quarto. A família reúne-se na sala. Ele não entende o teor da conversa. Sai, dirige-se para a cozinha. Olha para a mesa e se lembra, com carinho, de quando costumava tomar café da tarde com o avô. Lembra-se das reuniões de família ao redor da mesa comprida. E se lembra como a mesma mesa parecia curta durante as ceias de Natal. Do outro lado da cozinha ainda repousa o bule de café. Agora gelado, aqueceu a garganta do avô pela última vez no dia anterior. A mancha de café no tapete da sala ainda é visível e exala o cheiro dos grãos colombianos, fortes, o preferido do avô.
Vagarosamente, caminha até a garagem. Vê o baú velho onde a vó costumava guardar panos e cobertores antigos. Abre com dificuldade a pesada tampa. Automaticamente, penetra em suas narinas o cheiro agradável da avó. Se pergunta como é possível um cheiro tão doce resistir tanto tempo no baú velho. Vasculha pelos panos por alguns instantes até encontrar uma caixa que lhe rouba toda a atenção. Uma caixa de madeira, empoeirada. Uma mescla de verniz com madeira bruta. Abre a caixa com cuidado e além de pequenas baratas e outros insetos mortos, encontra os tesouros do avô.
Não se tratava de moedas ou notas de dinheiro. Dentro da caixa havia um broche, um soldadinho de brinquedo, correspondências, uma fotografia, recortes de jornais velhos -já deteriorados pelo tempo - uma infinidade de figurinhas em preto e brancos de atletas que jamais ouvira falar e uma fita amarela com o nome de sua avó.
O garoto poe a caixinha em seu colo. Delicadamente, tira umas figurinhas do bolo e analisa uma por uma. Ao terminar, as coloca de volta na caixa e resgata uns recortes antigos da Gazeta do Povo, jornal da cidade de seu avô. O papel se desfaz em suas mãos, tornando a leitura impossível. Em uma das imagens consegue identificar um menino, com trajes caipiras e um longo chapéu na cabeça. O mesmo menino aparece na fotografia. Sem chapéu e desta vez rodeado por outros rostos que ele desconhece. Deduz que o menino nas fotos seja seu avô.
Seu pensamento ganha asas enquanto mexe na caixa. Faz do soldadinho de chumbo um bravo combatente. Se espanta com as cartas trocadas pelo avô com o irmão, datando nada menos que sessenta anos antes do seu nascimento. Se admira ao ler "Regata de Ouro, 1931" no broche. Só não entende o porquê da fita amarela com o nome de sua avó. Acredita que pela ternura da caixa e por seu conteúdo, o avô depositou muito carinho ao guardar seus pertences.
Escuta alguém se aproximando. Guarda rapidamente a caixa dentro do baú enquanto seu pai abre a porta da garagem chamando seu nome:
"...vamos? Já pegamos o terno. Estão nos esperando para levar o corpo ao velório."
"Vamos", diz o garoto com voz frágil. Ele completa: "...podemos voltar amanhã? Eu queria dar adeus à casa."
"Dar adeus à casa?" pergunta o pai com espanto. "Mas a casa vai continuar aqui para sempre."
"Mas sem o vô." - replica o garoto.
"Filho, seu avô não precisa mais se preocupar com a casa. Em questão de meses outra pessoa estará vivendo aqui e a casa vai ficar bem. Igual ao seu avô."
"A gente pode voltar mesmo assim?" - insiste o garoto.
O pai finaliza dizendo:
"Bom, isso a gente vê depois. Agora vamos indo que a gente não pode se atrasar."
Em silêncio, todos entraram no carro deixando boas recordações para trás.
O neto caçula, de aproximadamente oito anos de idade, queria romper o silêncio, mas sabia que suas palavras imaturas não confortariam os corações desolados. Preferiu continuar calado. Um atrás do outro, os familiares deixaram o quarto. O neto foi o único que permaneceu.
Abriu gaveta por gaveta. Abriu todas as portas do armário grande, dividido igualmente com a esposa, falecida anos antes e mantido intacto desde então. Exceção feita ao vestido azul, com o qual fora enterrada.
O menino deixa o quarto. A família reúne-se na sala. Ele não entende o teor da conversa. Sai, dirige-se para a cozinha. Olha para a mesa e se lembra, com carinho, de quando costumava tomar café da tarde com o avô. Lembra-se das reuniões de família ao redor da mesa comprida. E se lembra como a mesma mesa parecia curta durante as ceias de Natal. Do outro lado da cozinha ainda repousa o bule de café. Agora gelado, aqueceu a garganta do avô pela última vez no dia anterior. A mancha de café no tapete da sala ainda é visível e exala o cheiro dos grãos colombianos, fortes, o preferido do avô.
Vagarosamente, caminha até a garagem. Vê o baú velho onde a vó costumava guardar panos e cobertores antigos. Abre com dificuldade a pesada tampa. Automaticamente, penetra em suas narinas o cheiro agradável da avó. Se pergunta como é possível um cheiro tão doce resistir tanto tempo no baú velho. Vasculha pelos panos por alguns instantes até encontrar uma caixa que lhe rouba toda a atenção. Uma caixa de madeira, empoeirada. Uma mescla de verniz com madeira bruta. Abre a caixa com cuidado e além de pequenas baratas e outros insetos mortos, encontra os tesouros do avô.
Não se tratava de moedas ou notas de dinheiro. Dentro da caixa havia um broche, um soldadinho de brinquedo, correspondências, uma fotografia, recortes de jornais velhos -já deteriorados pelo tempo - uma infinidade de figurinhas em preto e brancos de atletas que jamais ouvira falar e uma fita amarela com o nome de sua avó.
O garoto poe a caixinha em seu colo. Delicadamente, tira umas figurinhas do bolo e analisa uma por uma. Ao terminar, as coloca de volta na caixa e resgata uns recortes antigos da Gazeta do Povo, jornal da cidade de seu avô. O papel se desfaz em suas mãos, tornando a leitura impossível. Em uma das imagens consegue identificar um menino, com trajes caipiras e um longo chapéu na cabeça. O mesmo menino aparece na fotografia. Sem chapéu e desta vez rodeado por outros rostos que ele desconhece. Deduz que o menino nas fotos seja seu avô.
Seu pensamento ganha asas enquanto mexe na caixa. Faz do soldadinho de chumbo um bravo combatente. Se espanta com as cartas trocadas pelo avô com o irmão, datando nada menos que sessenta anos antes do seu nascimento. Se admira ao ler "Regata de Ouro, 1931" no broche. Só não entende o porquê da fita amarela com o nome de sua avó. Acredita que pela ternura da caixa e por seu conteúdo, o avô depositou muito carinho ao guardar seus pertences.
Escuta alguém se aproximando. Guarda rapidamente a caixa dentro do baú enquanto seu pai abre a porta da garagem chamando seu nome:
"...vamos? Já pegamos o terno. Estão nos esperando para levar o corpo ao velório."
"Vamos", diz o garoto com voz frágil. Ele completa: "...podemos voltar amanhã? Eu queria dar adeus à casa."
"Dar adeus à casa?" pergunta o pai com espanto. "Mas a casa vai continuar aqui para sempre."
"Mas sem o vô." - replica o garoto.
"Filho, seu avô não precisa mais se preocupar com a casa. Em questão de meses outra pessoa estará vivendo aqui e a casa vai ficar bem. Igual ao seu avô."
"A gente pode voltar mesmo assim?" - insiste o garoto.
O pai finaliza dizendo:
"Bom, isso a gente vê depois. Agora vamos indo que a gente não pode se atrasar."
Em silêncio, todos entraram no carro deixando boas recordações para trás.