segunda-feira, 1 de dezembro de 2014

Além de Shakespeare

  Bolaños morria praticamente todas as semanas nas redes socais. Notícias plantadas diziam que piorava o estado de saúde do artista mexicano e, de longe, sofríamos por não saber a verdade. Sexta-feira, 28 de novembro, chega uma mensagem em meu celular: “O Chaves (Chapolin) morreu”. Mais uma vez custo a acreditar na notícia. Vou até os sites especializados em informações minuto a minuto. O primeiro deles já estampa Roberto Gomez Bolaños, vestido de Chaves, num fundo preto e branco e as datas em destaque: *1929-2014*. Uma visita a outro site “confiável” e as primeiras lágrimas arriscam cair. Sabíamos que estado de saúde de Roberto era delicado. Mas recusávamos sua morte.
   Quatro dias após seu falecimento, continuo recusando as notícias. Para mim e para milhões de fãs, Roberto estará sempre vivo na memória e na herança que deixou ao mundo com seus personagens célebres.
   A genialidade de Bolaños lhe permitiu a realização de nosso maior sonho: voltar a ser criança. E ele fez isso da maneira mais modesta possível. Poderia ser o que quisesse, mas optou por voltar na forma de um garoto pobre, que mora no número 8, porém, nunca conhecemos sua casa. O único abrigo que conhecemos é seu barril. É lá onde ele mora, sem pagar aluguel. Algum vizinho se importa com a presença do garoto? Não. Mesmo aprontando suas diabruras, ninguém cogita expulsá-lo da vila pelo simples fato de não se importar com ele. Qualquer semelhança com o último pedinte que te abordou na rua não é mera coincidência.
   “Vai estudar, moleque! Você tem prova amanhã e está aí assistindo essa porcaria de Chaves? Você antecipa todas as piadas, já sabe o final de todos os episódios e fica aí rindo feito tonto. Toma vergonha nessa cara!” Mal sabiam estes que era lá onde eu mais aprendia. Aulas de Literatura Clássica mescladas com chavões populares em sua mais pura essência. E após anos dedicados aos seus episódios, hoje, com 23 anos, consigo conversar por horas com amantes das obras de Bolaños, utilizando apenas o nosso dialeto Boloñes.
   E o que dizer de um herói medroso, sem poderes especiais, que sempre se da bem no final? Um herói que tem como arma uma marreta biônica, que em alguns episódios pode ser letal, e em outros parece simplesmente ineficaz. Enquanto isso, no gigante imperialista localizado geograficamente acima do México, consolidava-se a imagens de super-heróis e sua bravura. A cada novo gibi um deles era o responsável por salvar a cidade de Nova Iorque, os Estados Unidos da América, até o ponto que a pátria não foi o suficiente para eles e tiveram de se arriscar a salvar o planeta com seus poderes além-humanos. Era a síntese da política norte-americana em quadrinhos.
   Nosso herói, humildemente, sofria para combater o sorrateiro pirata Alma-Negra, a malvada Bruxa Baratuxa, os perigosos bandidos Tripa-Seca, Quase-Nada, Racha-Cuca, Pistoleiro Velez, Mão-Negra e Poucas-Trancas, o assustador fantasma Riacho Molhado, o "Abomineve Homem das Naves", o Bebê Jupteriano. Uma coleção de vitórias invejável! Um herói que não impõe respeito, em um cenário onde tudo é de isopor, tal qual seu país, sempre à sombra das grandes produções norte-americanas. Sua maior qualidade não era triunfar sobre o inimigo, sua maior qualidade era sua astúcia. Não à toa o vermelho era sua cor.
   Quarenta anos após o surgimento dos personagens Chaves e Chapolin, o México ainda não resolveu problemas como a pobreza, narcotráfico, violência e analfabetismo. Basta uma olhada nos diários internacionais e veremos que os mexicanos ainda não resolveram sequer o problema do desaparecimento dos 43 estudantes da cidade de Ayotzinapa. Nas palavras do ex-presidente uruguaio, José Mujica: “um Estado falido”.
   Uma nação - não diferente da nossa - carente de identidade; uma nação carente de heróis. Bolaños está longe de ser o salvador da pátria, mas a devoção daqueles que deram volta olímpica no colossal estádio Azteca, tendo seu corpo como troféu, é o maior símbolo de sua herança positiva ao país. Em outras palavras, Roberto ajudava a confortar a árdua tarefa de ser mexicano.
   Descanse em paz, Polegar. Nós, os bons, jamais esqueceremos seus jargões e seu legado na Terra. E jamais deixaremos de rir com sua sofisticada maneira de entreter.

“Prometemos despedirmos sem dizer adeus jamais. Pois haveremos de nos reunirmos muitas, muitas vezes mais”




Um comentário:

  1. Que linda homenagem, Fê!!

    Realmente, um grande homem...ficará em nossos corações!!

    bjim, Lígia

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