segunda-feira, 1 de dezembro de 2014

Além de Shakespeare

  Bolaños morria praticamente todas as semanas nas redes socais. Notícias plantadas diziam que piorava o estado de saúde do artista mexicano e, de longe, sofríamos por não saber a verdade. Sexta-feira, 28 de novembro, chega uma mensagem em meu celular: “O Chaves (Chapolin) morreu”. Mais uma vez custo a acreditar na notícia. Vou até os sites especializados em informações minuto a minuto. O primeiro deles já estampa Roberto Gomez Bolaños, vestido de Chaves, num fundo preto e branco e as datas em destaque: *1929-2014*. Uma visita a outro site “confiável” e as primeiras lágrimas arriscam cair. Sabíamos que estado de saúde de Roberto era delicado. Mas recusávamos sua morte.
   Quatro dias após seu falecimento, continuo recusando as notícias. Para mim e para milhões de fãs, Roberto estará sempre vivo na memória e na herança que deixou ao mundo com seus personagens célebres.
   A genialidade de Bolaños lhe permitiu a realização de nosso maior sonho: voltar a ser criança. E ele fez isso da maneira mais modesta possível. Poderia ser o que quisesse, mas optou por voltar na forma de um garoto pobre, que mora no número 8, porém, nunca conhecemos sua casa. O único abrigo que conhecemos é seu barril. É lá onde ele mora, sem pagar aluguel. Algum vizinho se importa com a presença do garoto? Não. Mesmo aprontando suas diabruras, ninguém cogita expulsá-lo da vila pelo simples fato de não se importar com ele. Qualquer semelhança com o último pedinte que te abordou na rua não é mera coincidência.
   “Vai estudar, moleque! Você tem prova amanhã e está aí assistindo essa porcaria de Chaves? Você antecipa todas as piadas, já sabe o final de todos os episódios e fica aí rindo feito tonto. Toma vergonha nessa cara!” Mal sabiam estes que era lá onde eu mais aprendia. Aulas de Literatura Clássica mescladas com chavões populares em sua mais pura essência. E após anos dedicados aos seus episódios, hoje, com 23 anos, consigo conversar por horas com amantes das obras de Bolaños, utilizando apenas o nosso dialeto Boloñes.
   E o que dizer de um herói medroso, sem poderes especiais, que sempre se da bem no final? Um herói que tem como arma uma marreta biônica, que em alguns episódios pode ser letal, e em outros parece simplesmente ineficaz. Enquanto isso, no gigante imperialista localizado geograficamente acima do México, consolidava-se a imagens de super-heróis e sua bravura. A cada novo gibi um deles era o responsável por salvar a cidade de Nova Iorque, os Estados Unidos da América, até o ponto que a pátria não foi o suficiente para eles e tiveram de se arriscar a salvar o planeta com seus poderes além-humanos. Era a síntese da política norte-americana em quadrinhos.
   Nosso herói, humildemente, sofria para combater o sorrateiro pirata Alma-Negra, a malvada Bruxa Baratuxa, os perigosos bandidos Tripa-Seca, Quase-Nada, Racha-Cuca, Pistoleiro Velez, Mão-Negra e Poucas-Trancas, o assustador fantasma Riacho Molhado, o "Abomineve Homem das Naves", o Bebê Jupteriano. Uma coleção de vitórias invejável! Um herói que não impõe respeito, em um cenário onde tudo é de isopor, tal qual seu país, sempre à sombra das grandes produções norte-americanas. Sua maior qualidade não era triunfar sobre o inimigo, sua maior qualidade era sua astúcia. Não à toa o vermelho era sua cor.
   Quarenta anos após o surgimento dos personagens Chaves e Chapolin, o México ainda não resolveu problemas como a pobreza, narcotráfico, violência e analfabetismo. Basta uma olhada nos diários internacionais e veremos que os mexicanos ainda não resolveram sequer o problema do desaparecimento dos 43 estudantes da cidade de Ayotzinapa. Nas palavras do ex-presidente uruguaio, José Mujica: “um Estado falido”.
   Uma nação - não diferente da nossa - carente de identidade; uma nação carente de heróis. Bolaños está longe de ser o salvador da pátria, mas a devoção daqueles que deram volta olímpica no colossal estádio Azteca, tendo seu corpo como troféu, é o maior símbolo de sua herança positiva ao país. Em outras palavras, Roberto ajudava a confortar a árdua tarefa de ser mexicano.
   Descanse em paz, Polegar. Nós, os bons, jamais esqueceremos seus jargões e seu legado na Terra. E jamais deixaremos de rir com sua sofisticada maneira de entreter.

“Prometemos despedirmos sem dizer adeus jamais. Pois haveremos de nos reunirmos muitas, muitas vezes mais”




segunda-feira, 27 de outubro de 2014

Só sei que nada sabemos



Antes de mais nada, gostaria de agradecer a todos os chatos que nos últimos dias expressaram sua opinião política através de diversos meios de comunicação. Em especial as redes sociais. O fato de estarmos discutindo política e deixando o corriqueiro de lado me sugere que, finalmente, estamos estabelecendo primordialidades e, indiretamente, deixando o inútil de lado.
Verdade seja dita: a maioria que comentou, acabou falando asneira. Não deprecio. Aliás, sou um daqueles que cisma com uma doutrina e a segue até ser persuadido. Às vezes, nem eu mesmo entendo por que sigo a toada. Me interesso, vou atrás, pesquiso superficialmente, mas, nunca me aprofundando em nenhum assunto. Nada além da minha velha sina de querer entender de tudo um pouco e me especializar em porra nenhuma. E com política não seria diferente. 

Acho que entender política em um cenário conturbado igual o que estamos é igual tentar explicar um placar de 7x1 numa semifinal de Copa do Mundo. Faltam argumentos e sobra falácia. 

Ainda não sei o que esperar do Brasil de Dilma. Provavelmente, mais quatro anos do mesmo. Escândalos aqui e acolá, inflação incontrolável e desvalorização da moeda nacional. Tampouco imagino o que seria do país nas mãos do contestado PSDB. São Paulo come o pão que o diabo amassou há anos com o governo peemedebista. E nem sequer uma aguinha para engolir esse sofrido pãozinho.

Nunca concordei com essa máxima de que o voto é secreto. Não faço do meu voto um segredo. Prefiro expor minha opinião e aprender sobre a opinião alheia. Atitude que acabou custando caro nas últimas eleições. Difícil explicar para minha mãe que eu não sou petista; que votei no PT apenas por eliminação. Mesmo se eu fosse petista, essa condição não faz de mim um monstro. Existe muito mais por trás dos bastidores da política do que supõe nossa vã filosofia para erguer qualquer bandeira.

O Brasil virou um dérbi. O time de azul contra o time de vermelho. Porém, repito: estou muito feliz com a condição. Acredito que a partir de agora a tendência é acompanhar mais de perto o que nossos “representantes” estão tramando. A partir de 1º de Janeiro quero ver todos abaixando suas bandeiras e erguendo suas lupas. Vamos ler mais jornais e revistas (Mais de um jornal e mais de uma revista, por favor!). E vamos cobrar as promessas, antes que virem arquivos de gaveta. Já perdemos muito tempo para sermos passados para trás por mais quatro anos.

Se você leu e gostou, obrigado. Se leu e não gostou, obrigado mesmo assim. Esse é o relato de alguém que não conhece muito sobre política, mas que construiu seu ponto de vista estudando o assunto proposto e respeitando a tese adversária. Não se sinta obrigado/a a curtir, compartilhar ou mover qualquer crítica ou sugestão. De nada irá adiantar porque de nada eu sei. E vou custar a acreditar que você sabe muito mais do que eu. Pretensioso, sim. Bitolado, talvez. Mas nunca leviano. E se ignorância é uma bênção: até aqui vem me ajudado o Senhor. Amém!



domingo, 25 de maio de 2014

Rebel Love


   During my international experience I learned precious things. Since cooking my own food till get my student Visa done. During my international experience I met lots of people. People from everywhere. With some of them I spent few minutes. With others I spent precious moments which I’ll never forget. I believe that every single one has an advice to give, a thought to share and some knowledge to spread. I can’t remember all the people I had been with, but their legacy should be never forgotten. 
    Being passionate by football makes me closer to people who feels the same as I do about the sport. It is hard for me to say when my passion for football loses space to the love I feel from my team. My family thinks I’m crazy when I am watching a match. When they see me screaming with the television they ask me: “Is it a final? Why are you yelling so much at the players who can’t hear you? Have you lost your mind?” So I say: “No, its not a final. It’s just a friendly game. No points in game. ” Yeah, I confess I may take football too serious. More than I should, maybe.
    So, I graduated as a Journalist. I believe it would keep me close to the team I love. But we all know that journalists should never take a side on games. So I started to focus on football as a spectacle more than a rivalry. It worked a little bit. I still can see football in a professional way. But it's hard to detach from my beloved team. I keep on trying.
     Still during my trip, I got in touch with football fans from different countries. And the worst happened to me. It is hard to follow your own team, indeed. Hard to follow the daily news about players. When I though my passion was controlled, now I must deal with a divided heart. What before was completely red, black and white now got a new red and white tone. Not the same red that represents São Paulo’s passion. Not even the same white that represents São Paulo’s glories. Now it’s a colchonero red and white. I was not looking for a new passion, but this passion came straight on my direction. And it was unavoidable not to fell in love with it.
   Where does it come from? Influence, probably. Besides, hatred from Madrid's popular team, the almighty Real Madrid. Always considered as the best team in the world, trophies and more trophies, money and more money, the richest part of Madrid, the Galactic. It always sounded awfully phony for me. My biggest colchonero friend once told me: “Bro, I need to tell you something really important, pay attention:  When you choose Atleti, you are not making a simple choice. Its not easy to grow up in a town influenced by Real Madrid. Among my classmates, most of the times I was the single atleticano. Maybe one or two more, but we were always minority. You know why? Because we are the rebels. We came from a different education, we have different traditions, we are proud of it. So, please, honor our colors.”
    Those words kept me on thinking about this passion. Coincidence or not Atletico de Madrid was facing its best moment In years. World’s attention was focused on Cholo Simeone's squad at that moment. I wondered If that was true love or enthusiasm. The answer was clear: May, 24th, 2014. Lisbon, Portugal, Light Stadium. Football's second largest event was taking place and Atletico was involved. On the other side the biggest rival, a trick from destiny. Time for glory or time to reset and carry on. Real Madrid was there due to it's fabulous campaign. So was Atletico, but, during the competition, Atletico faced a hardest rival. Harder than any enemy Real had ever faced: distrust. And Atleti beat them all majestically till the final.
    About the game there is not much left to say besides all the bravery and commitment shown by our boys. All the fourteen rojiblancos who went to that field and gave their best will be always remembered. Doesn’t matter if the trophy didn’t came. Remarkable moments of glory were conquered and all the supporters are more than proud of our team.
     Personally I must say that this May, 24, 2014 was the day of my higher achievement. The day that was clear for me that a passion developed to a great love and since now better times are coming. We don’t have to face distrust anymore because next year they will fear us. And If they doubt our abilities they must be prepared because there will be no mercy. After all, that’s what rebels does. We fight and we are never beaten.



quarta-feira, 21 de maio de 2014

Vista de fora

    Há um tempo eu era tomado por um patriotismo que apenas surgiu e foi crescendo ao longo do tempo. A medida que o sentimento foi ganhando forma eu comecei a me perguntar até que ponto eu era retribuído. Optei por sair do país. Acreditei que passar um tempo longe me tornaria mais experiente a ponto de julgar minha nação com olhos críticos e, indiretamente, sanar a necessidade humana de busca por um lugar ideal.
    Após vinte meses morando em Dublin, na fria Irlanda, ainda não sei se obtive conhecimento suficiente para comparar com o Brasil. Aliás, pode ser que o tempo que passei pela ilha verde não ofereça credenciais sequer para tratar sobre Irlanda. Mas seguro nas mãos do sendo comum e os presenteio com minhas impressões.
    Começando, talvez, pelo delicado e já abordado tema: patriotismo. Mesmo há 10 mil kilômetros de casa nunca me senti longe, tamanha presença massiva de brasileiros em Dublin. Gente de todos os cantos do Brasil. Várias raízes em comum, porém, diversos pontos de vista. Foi comum encontrar jovens, recém formados ou não, em busca de uma nova experiência enquanto "perdidos" na vida. Foi comum encontrar pessoas mais velhas, recém formadas ou não, em busca de uma nova experiência enquanto "perdidos" na vida. Para o meu alívio. Para o meu desespero.
    Em uma dessas conversas de pub me disseram que quem sai do país de origem, geralmente, foge de algo. Fui obrigado a concordar em termos. Ainda não sei o motivo da minha fuga, mas gosto da alcunha de fugitivo. A maior fuga, talvez, seja da cidade gigante onde cresci ou o próprio peso do fardo. Outra semelhança dos que aqui encontrei é o recomeço. Inevitável para cada um de nós. E devo confessar que sentia inveja daqueles que voltavam com a cabeça feita. E, às vezes, certa piedade por eles.
    Nessas horas eu via emergir a figura de um vilão com pinta de herói. Ele que traje roupas velhas, sinais de castigado pelos maus tratos. Seu gosto é azedo e seu aspecto é áspero. Capaz de criar e destruir com a mesma facilidade. Guarda um poço de sentimentos felizes ora raivosos. Pode ser facilmente reconhecido pelo largo sorriso que sempre carrega no rosto e atende pelo nome de povo de brasileiro.
    Nossa maior herança, nosso maior trunfo. Nós que em meio há uma selva de misturas podemos facilmente nos reconhecer na multidão. Nós que ganhamos fama internacional com o nosso jeito. Os mesmos que elevam e denigrem. Todos donos da verdade e cada um em busca da mais confortável para acreditar. Basta um olhar para reconhecer. Mas faltariam palavras no dicionário para classificar.
    Não sei se sou exemplo do bom brasileiro. Não conheço o dito cujo. Sou exemplo de amor e esperança. Talvez fosse exemplo de fé, se ao menos tivesse em quem depositar. Seria difícil explicar coisas que vivi. Meu único desejo é voltar e ser o exemplo. Exemplo de mim, para eu mesmo. Por o Brasil no peito e fazer da minha forma. Um comentário no balcão da padaria não muda, só ofende. E se o jeitinho incomoda, por que não testar de outra maneira?
    Travamos batalhas diárias, mas a guerra já está perdida há muito tempo e dentro da gente. Bastou uma saída para limpar as lentes que me fazia enxergar o belo e descobrir que é bizarro. A mesma lente crítica que me faz ver além. País do futuro há anos. E esse futuro que nunca chega.
    Se o tempo não é gentil com a gente, é esse mesmo tempo quem virá, e quiçá, venha com boas notícias. Pode ser que não mude para um todo, mas a mudança fundamental já começou. Não é preciso sair do país para evidenciar seus benefícios e malefícios. A mudança fundamental começa de dentro. Custa nada, mas se não vier pode ter um custo alto e o troco vem em bala.
    Lá se passaram vinte meses. E eu que sempre pensei nesse artigo ainda não sei como terminá-lo. Talvez não mereça um fim; as opiniões estão sempre mudando. Sou grato, pelo menos, por ter conseguido começar. Difícil resumir todas as experiências. Mais difícil ainda não apelar para o lado social. O peito estava cheio e casou perfeitamente com o branco do papel.
    Para terminar com cara de blog às moscas que o rodeia, deixo um tutorial para o modelo de sociedade utopicamente perfeita em que quero viver:
.deixe a esquerda livre;
.sinalize quando no trânsito;
.peça por favor e agradeça;
.não fume em lugares fechados;
.jogue o lixo no lixo;
.não fure filas;
.respeite;

    Parece simples de seguir, mas há momentos em que fraquejamos. Prometo que vou tentar seguir à risca, mas garanto que jamais perderei a essência que construiu o que sou: brasileiro com muito orgulho, obrigado.


     

sábado, 1 de março de 2014

O retorno da felicidade

    Na última rodada do campeonato paulista o São Paulo venceu o modesto XV de Piracicaba. Desde então o que mais vejo nas páginas de esporte é que o clima no tricolor finalmente está apaziguado. Nenhum jogador reclamando da condição de reserva, uma vitória fora de casa após longos meses de jejum, jogadores "bixados" mostrando vigor em campo e Paulo Henrique Ganso reconquistando o status de craque após dois passes para companheiros na cara do gol. Enfim, não importa se as vitórias estão chegando com um futebol grosseiro, mas o importante é que estão chegando.
   Ainda não confio 100% em certos integrantes do elenco e comissão técnica, mas já temos um bom motivo para comemorar. Não acredito em filosofias de boteco, tarô ou espíritos, mas acredito que na vida existe um eterno retorno.

"E se um dia ou uma noite um demônio se esgueirasse em tua mais solitária solidão e te dissesse: 'Esta vida, assim como tu vives agora e como a viveste, terás de vivê-la ainda uma vez e ainda inúmeras vezes: e não haverá nela nada de novo, cada dor e cada prazer e cada pensamento e suspiro e tudo o que há de indivisivelmente pequeno e de grande em tua vida há de te retornar, e tudo na mesma ordem e sequência'". 

 
    O trecho acima foi extraído da obra de Friedrich Nietzsche, A Gaia Ciência, de 1882. Nele Nietzsche descreve a redenção em tempos de angústia. Basicamente, o eterno retorno prega que, seja bom ou ruim, tudo na vida tem um ciclo sem fim. Toda aflição e alegria terá seu retorno em um período indeterminado. E o que Nietzsche tem a ver com o futebol? Tudo.
    Vamos pegar o exemplo não muito distante geograficamente do São Paulo: o Corinthians. Em 2000 o Corinthians viveu, não é exagero afirmar, a melhor fase de seus -até então- 90 anos. No ano 2000 o clube faturou, ainda em Janeiro, o mundial Interclubes da Fifa. Um mês antes o timão havia se consagrado bicampeão brasileiro, a terceira taça da equipe do torneio.
     Em 2007, os deuses do futebol resolveram pregar uma peça no time e mandá-los para a segunda divisão. Anos depois, a reação corintiana começou aos poucos. O time faturou a série B de 2008 com sobras, venceu o campeonato paulista e Copa do Brasil de 2009. No ano seguinte (centenário) passou batido. Mas isso não tirou o brilho do título do Campeonato brasileiro da série A em 2011. A redenção corintiana veio de vez em 2012, quando o time venceu a inédita Libertadores e bateu o poderoso Chelsea no Japão.
    No período de 2000 a 2012 é possível afirmar que o Corinthians foi do céu ao inferno, para depois retomar o seu devido posto no paraíso, mostrando que no futebol há espaço para o eterno retorno.
     Quem também sofreu com o eterno retorno foi o Palmeiras. O time que em 1999 foi campeão da Libertadores e bateu na trave na tentativa do título mundial sofreu uma queda repentina. Queda por queda, foi parar na série B no ano de 2003. Em 2004 voltou apresentando um bom cartão de visitas: vaga à Copa Libertadores de 2005. Anos mais tarde o time conquistou a Copa do Brasil, em 2012. Mas nem tudo foi alegria naquele ano. O eterno retorno não foi gentil com o verdão e os mandou de volta ao limbo da série B.
     O Santos, por sua vez, após a era Pelé estagnou-se no mundo da mesmice. Poucos títulos, poucos holofotes. As coisas começaram a mudar no final dos anos 90 e início dos anos 2000. Destaque para Giovanni, que conduziu o peixe à final do Brasileiro de 1995 e Robinho, que ao lado de Diego, Elano e companhia colocou os meninos da vila de volta aos trilhos do sucesso. Campeões estaduais, nacionais e depois, com a ajuda do ídolo Neymar, o Santos reconquistou a América, confirmando seu retorno.
     Deixando os rivais de lado, voltemos ao longínquo ano de 1993, ano em que o São Paulo venceu o Milan na final do torneio Intercontinental, tornando-se bicampeão do mundo. Aquele foi o ápice do sucesso são paulino. Vale lembrar que naquela época o Milan representava a base da seleção italiana vice campeã na Copa do Mundo de 1994, perdendo exatamente para o Brasil. Título que não ficou com o Brasil em 1994 foi a Libertadores. O mesmo São Paulo de Telê Santana chegava a sua terceira final consecutiva. Após bater Newell's Old Boys e Universidad Católica nos anos anteriores, o tricolor esbarrou na máquina argentina do Velez Sarsfield, na época comandado por Carlos Bianchi.
     De 1994 até 2005 o São Paulo passou períodos de vacas magras. Títulos não faltaram. Mas o que faltava eram títulos expressivos,  que condiziam com a grandeza do bicampeão mundial.  O torcedor precisou se acostumar com jogadores pouco badalados. Por muitas vezes grossos, para ser sincero. Me vem a mente nomes como o goleiro Alencar, os zagueiros Rogério Pinheiro, Reginaldo Cachorrão, Wilson e Émerson, os laterais Rafael, Lino, os meias Alexandre Rottweiler, Carabali, atacantes como Jacques, Dill e Rondón. Daria tranquilamente para fazer um time de jogadores com passagem desastrosa pela equipe. Tudo bem, o futebol, às vezes, funciona como loteria e contratação nem sempre é sinal de sucesso. Azar e loteria andam lado a lado. Azar da torcida que passava raiva com com esses atletas em campo.
    Para a alegria são paulina a sorte do time começou a mudar. Em 2005, numa mescla de apostas e nomes consagrados, o São Paulo levantou a taça da Libertadores e o  cobiçado Mundial Interclubes pela terceira vez. O São Pualo fechara as portas do purgatório e o Morumbi transformou-se num paraíso na Terra até o ano de 2008, ano do hexacampeonato brasileiro.
    De lá para cá o time mergulhou num poço de lava demoníaca e amargou nada mais que o pior ano da história do clube. 2014 começou com muita expectativa. O técnico Muricy Ramalho finalmente teria a chance de fazer a pré temporada com a equipe. Os tão necessários reforços não vieram e o resultado foi uma extensão de 2013 em pleno ano novo: derrota na estréia para o Bragantino, derrota em clássico e um time apático longe de seus domínios.
    A última rodada foi o suficiente para voltar a estampar um sorriso no rosto do torcedor são paulino. Até quando não sabemos. Mas se tem uma coisa em que o futebol é bom é na arte de surpreender.
   Os Jeans, Régis, Axel, Oliveiras do passados podem facilmente serem vistos nas peles de Rodrigo Caio, Paulo Miranda, Douglas e Maicon. Historicamente, significa que a torcida não deve esperar muitos frutos positivos desse time. Mas, se a lei do eterno retorno for generosa em breve o martírio vai ter seu fim, as trevas darão lugar a luz e o tricolor pode até sonhar com um título da Libertadores em breve.
    Nietzsche morreu em 1900, por isso não teve muitas chances de acompanhar as mudanças no futebol. Mesmo assim contribui imensamente para essa gangorra entre o bem e mal dos clubes. Se estivesse vivo ficaria orgulhoso por alimentar esse sonho nos torcedores, em especial nos são paulinos, que ultimamente assistem aos jogos com uma caixinha de Pandora embaixo do braço.

quarta-feira, 12 de fevereiro de 2014

Mero achismo

   Gabriel é uma pessoa curiosa. Um cara que gosta de comentar sobre assuntos que intrigam a todos, mas, que de uma forma misteriosa para ele, tornam-se intocáveis.
   Um dia, antes de ir para a cama, Gabriel olhou-se no espelho do banheiro e se perdeu no alto de seus pensamentos. Ele mirava atenciosamente o seu reflexo, mas sua mente não estava lá. Ele pensava, num flash de segundos, em todas as pessoas que havia conhecido em sua vida. Toda e qualquer alma que havia cruzado seu caminho direta ou indiretamente ao longo de seus vinte e um anos.
  Constatou que era impossível. Mas permanecia inquieto.
   Horas antes, voltando de seu trabalho, indagava a si próprio o porquê de tamanha cobrança social para tornarmo-nos pessoas melhores. Cidadãos exemplares, pais de família, homens de honra, mulheres de respeito. Por que não apelar para um sistema anárquico, onde as vontades imperam? Mas percebeu que sequer sabia o conceito de Anarquismo. Passou então a se indagar qual era realmente a importância do comportamento social quando a preguiça é mais forte.
   Gabriel pensou em vender todas as suas posses e reverter em flores e sair distribuindo pelo seu bairro. Ele morreria pobre, mas satisfeito por ter aberto o sorriso de uma moça apaixonada que recebeu flores anônimas numa terça feira à tarde. Mas lembrou-se que não possui terras e nenhum outro patrimônio em seu nome. E ainda pensou na dificuldade em vender tudo, comprar uma estufa gigante e cuidar, diariamente, dos milhares de pezinhos de flores que cultivaria.
   Pensou então em fazer nada. Quem passou por sua vida já se foi, ficou no passado. Para ele, vale mais a pena fazer uma pessoa eternamente feliz do que provocar um sorriso hedônico numa quinta feira de manhã.
    Começo a achar que Gabriel tem razão.

domingo, 9 de fevereiro de 2014

domingo, 19 de janeiro de 2014

Pop art

Walking in a supermarket these days I found this:

                                      

     It was the first time I saw Campbell's soup in real life, not in an Andy Warhol's frame. The first thing that "Pop" into my mind was the tradition of this object. Known throughout the whole world as a priceless painting collections, the can was being sold there, in front of me, for just €1,49. At the moment I had no doubts I would buy it. The only question was Mushrooms or Tomato. I picked Mushrooms.
     Left the supermarket and couldn't wait no longer to get home and try the soup. Actually, I didn't care about the soup at any moment, I just wanted that can. I was not hungry when I got home, but started preparing my precious soup straight away. Opened the lid carefully not to wreck the can. I was a bit frustrated at the sight of it. The soup looks like something disgusting and smelly. Something else but soup.
     I checked the cooking instructions and found to add some water to that goo. The apperance was fine, the smell was really strong but kinda acceptable. Decided to put some cheese. Cheese always makes everything better. But not this time. I can't figure out any ingredient to make that soup better. The only way to swallow it down was by dunking some bread on it. When my bread was finished, the soup was over for me. Can't remember having such a terrible meal in ages. That taste makes me wonder the power of propaganda. I bought the soup solely for its can. If I were hungry I would be pissed off with Campbell's company and Andy Warhol.
     Well, the soup sucks: okay. But after dinner I had the can washed, sterilized, dried and ready to go. Now it's part of my bedroom's furniture. A brand new stylish pencil case. I believe that part of life consists in making art wherever you can find it. Also, I was lacking a pencil case. 



terça-feira, 14 de janeiro de 2014

Liverpool

Uma vez me disseram: "Fernando, escreva sobre sua viagem a Liverpool."
    Escrever foi umas das atividades que mais pratiquei quando visitei Liverpool . Além de andar pela cidade, tomar cerveja e ouvir Beatles. Por motivos de muitas cervejas tomadas, sequer lembro o que escrevi. Aposto que nada de muito valor.
    O que trouxe comigo daquela cidade foi uma vontade imensa de voltar. E outra grande vontade: escrever sobre a viagem. O problema é que na época era uma tortura escrever sobre esse assunto. Toda vez que sentava, pegava papel e caneta, logo no primeiro paragrafo já era tomado por uma nostalgia de sete cabeças que me devorava a alma e apertava o coração. Hoje, recuperado, embora ainda com saudade, me arrisco a escrever sobre a experiência. Mas ainda acho difícil encontrar palavras para descrever Liverpool.
    Vasculhando uns versos e outros textos que encontrei - frutos do período que fiquei na cidade - é inevitável não esbarrar em Beatles logo nas primeiras memórias. Sempre gostei do quarteto, mas nunca fui um fã de carteirinha, um beatlemaníaco. Uma vez em Liverpool, o difícil é não sair de lá Beatlemaníoco.
   Tive a chance de conhecer o museu da banda. Museu, aliás, composto por dois prédios. E garanto não ser o suficiente para hospedar tamanha devoção. O museu principal, The Beatles Storry, como o nome sugere, registra toda a história da banda desde os tempos em que os Beatles eram meros garotos de Liverpool que ainda não se conheciam.
    O outro prédio, localizado à beira do cais da Misericórdia, exibe uma animação em 3D sobre um garoto que tenta chegar ao show de sua banda a tempo da apresentação. Para isso, ele conta com a ajuda de um submarino amarelo - operado por um por um comandante louco de ácido - para atravessar a baía. Um "must see" para quem visita a cidade.

    Durante a noite saí para descobrir o que a cidade oferece além de Beatles, mas acabei me rendendo ao Cavern Club. O local foi palco das primeiras apresentações do grupo, além de outras bandas influentes no cenário liverpuldiano, como Gerry and the Peace Makers, e nacional, como The Kinks. Cerveja muito boa, música de qualidade, acabei voltando ao Cavern Club na noite seguinte. Infelizmente passei apenas dois dias na cidade. Em caso de terceiro dia, voltaria certamente à caverna.
    E para não dizer que não falei de futebol, visitei o Anfield Stadium - casa do meu freguês Liverpool FC - onde recebi uma aula de hospitalidade. Vestido com meu manto preto, vermelho e branco fui logo reconhecido pelo recepcionista que me disse com inglês quase imcompreensível: "Ainda me lembro daqueles três gols anulados em 2005". Sorri. E com meu inglês pouco compreensível disse que estava alí como um fã, não inimigo. A camiseta era apenas um amuleto.
    Ele claramente se referia ao dia 18 de Dezembro de 2005, o mais feliz da minha vida futebolística, quando o São Paulo FC bateu o Liverpool FC por 1x0 e sagrou-se tricampeão do Mundo.
    Subi as escadas que me levavam até o museu do time. Logo na porta fui surpreendido com um comentário: "Do Brasil, né? Por aqui ainda não esquecemos aquele jogo de 2005". Um sujeito alto, careca e muito simpático foi logo dando seu cartão de visitas. Minha resposta estava na ponta da língua: "Me veja como um fã, não um inimigo!". Após uma breve conversa, o sujeito retira o celular do bolso e mostra fotos com um amigo brasileiro, o goleiro Diego Cavaliere, ex jogador do Liverpool. Disse que eram amigos pessoais e que até os dias de hoje, três anos após a saída de Diego do Liverpool, eles mantêm contato. Me lembro que o gentil funcionário ficou surpreso quando lhe disse que o Fluminense, atual time de Cavaliere, estava prestes a ser rebaixado no Campeonato Brasileiro. Mal sabia eu o desfecho que o campeonato levaria...
    Pedi para tirar uma foto com ele em frente ao símbolo do Liverpool FC, em mostra de gratidão. O senhor caminha até uma sala, onde pede a outro funcionário que tire uma foto nossa. Um jovem caminha até nós e antes mesmo que eu esboçasse qualquer reação ele dispara: "Sal Palo? Hunf...2005..."


  O Anfield Stadium suporta 45 mil torcedores. É um estádio grande, mas não é grande o suficiente para o tamanho do clube. Mesmo assim, gostei da forma como os atuais dirigentes mantêm as instalações do clube, alegando que no passado as glórias foram conquistadas com essa mesma estrutura, não havendo motivo para serem alteradas. Uma mistura de saudosismo com superstição. De qualquer forma, o estádio é de fácil acesso e conta com um vasto estacionamento para melhor receber seus torcedores. Serve de lição para muitos estádios brasileiros.
    Não sou engenheiro, designer, arquiteto, ou qualquer outro profissional que se atraia por construções, prédios, traços e afins, mas a estrutura de Liverpool impressiona. Os altos prédios dão ares de imponência à cidade. No topo do Royal Liver Building, o mais charmoso dos edifícios, é possível enxergar o Liverbird, pássaro que é o símbolo de Liverpool. No centro, minha atenção foi tomada pela torre de rádio local.  Com 140 metros, é o segundo maior monumento da cidade.


  Mas, o prêmio de construção mais impressionante vai para a Catedral de Liverpool. Pesquisei recentemente quais eram os maiores edifícios religiosos do mundo e o resultado parece dúbio. Aparentemente, a Catedral de Liverpool é a sétima maior do mundo em volume. Embora pareça muito alta para mim, essa igreja é facilmente superada por outras em altura. A diferença é que a Catedral de Liverpool não conta com uma torre tão alta como a Catedral de Ulm, por exemplo. Enfim, a Catedral de Liverpool tem 100 metros de altura e é possível se perder no seu interior. Se a intenção da igreja era fazer o homem se sentir pequeno perante Deus, o objetivo foi conquistado com êxito em Liverpool.


     Para conhecer tantos lugares foi preciso um sistema de transporte eficaz e econômico. E nesse critério Liverpool também não deixou a desejar. Por apenas £3,10 comprava meu ticket diário de ônibus e com ele andava pela cidade inteira. Ônibus confortáveis, espaçosos e jamais lotados, mesmo durante as imperceptíveis horas de pico. Metrô também tinha, mas foi desnecessário mediante eficiência do sistema de ônibus. O Merseyrail tem 120 kilometros de extensão e começou a ser construído nos anos 60. Liverpool conta com meio milhão de habitantes. Qualquer comparação com o metrô de São Paulo me deixa desiludido.
    Falando em Brasil, encontrei um pedacinho de casa por lá. Para minha surpresa, o artista Crânio esteve em Liverpool, também em 2013, mostrando seu talento ao mundo. O que me deixou bem orgulhoso.

    Enfim, uma cidade que surpreende a cada cruzamento dobrado. Longe de Liverpool meus dias se tornaram mais tristes. A batida dos Beatles tornou-se melancólica. Uma possível volta me alegra. Mas até lá meu coração ficará à deriva no Oceano da saudade, feito Titanic, que saiu de Liverpool e nunca mais foi o mesmo.



sexta-feira, 3 de janeiro de 2014

Chega uma hora

Chega uma hora em que o menino para de gostar de futebol.
Aquela hora em que ele cresce e descobre que seus ídolos são feitos de pau.
A bola vai para escanteio.
O diário de esportes fica esquecido na pilha de jornal.
A camiseta do time embolora no armário.
Nas conversas entre amigos parece mais interessante falar de política, religião e garotas.

A mãe desconfia das silenciosas tardes de domingo.
O primo precisa encontrar outra companhia para ir ao estádio.
O pai simplesmente não acredita.
"Esse menino está diferente", comentam.
O pôster de campeão atrás da porta do quarto não existe mais.
Se perguntar qual o jogo de hoje a noite, ele não sabe a resposta.
Pior, quando questionado para qual time ele torce, apenas desconversa:
"Torço para time nenhum. Futebol? Futebol é perda de tempo."

Os amigos de infância, trazidos por intermédio do futebol, já não vê mais.
A busca frenética por contratações no começo de cada temporada, já não importa mais.
Diz a todos os cantos que os atletas são "uns vendidos",
"no futebol não existe mais amor à camisa", "é tudo dinheiro"
Alega que antes mesmo de começar o campeonato já está decido quem será o campeão.
Reclama da falta de organização do calendário nacional.
E não se conforma com empresários roubando as joias dos clubes.
Vendo a briga nas arquibancadas é relutante:
"bando de animais! Dando a vida por onze caras que nem sabem que ele existe."

Sem o futebol se diz mais feliz.
Não acredita ter sido "enganado"por tanto tempo.
Quando terminar a faculdade de Cinema pensa em se mudar do país.
Viver bem longe de casa.
Bem longe do outrora time do coração.
Futebol para o menino é passado.
Chegou a hora que o menino parou de gostar de futebol.

Ainda bem que essa hora ainda não chegou para mim.